21/06/2007

Mesa x Altar

Em tempos pós conciliares, aonde o Sacrário/Tabernáculo fora removido/arrancado do foco central de nossas Igrejas, aonde a Presença Real para muitos parece ser irreal, aonde deixam de dar o "melhor" para honrar o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, aonde literalmente demolem nossos altares em nome de um falso Ecumenismo, tentando assim igualar/rebaixar o Sacrifício do Calvário em uma mera "Ceia Protestante", Protestantes esses que NEGAM o aspecto PROPRICIATÓRIO da mesma; eis um pequeno mas elucidante vídeo aonde podemos notar a ENORME diferença no tratamento das coisas Sagradas.


Rezemos pelos que não tem acesso a Missa Romana, mas rezemos também para os que tem que passar por situações como esta do Indulto (insulto) abaixo.

Mas dentro das circunstâncias, eu diria que eles ainda conseguiram fazer muito, parabéns á esses filhos zelosos de Deus.



10/06/2007

Virgem de Guadalupe

A Virgem de Guadalupe:
desafio à ciência moderna

Para o ateu moderno, acostumado a dar valor só ao que julga provado pela ciência, o milagre de Guadalupe, no México, é no mínimo constrangedor. Pois a ciência prova que houve milagre!

Valdis Grinsteins

Uma pessoa não totalmente atéia, mas profundamente contaminada pelo pensamento moderno, dizia-me que aquilo que não é provado cientificamente não existe. Mas — típica contradição da alma humana — não queria falar do Santo Sudário de Turim, pois as descobertas científicas sobre ele a abalavam; e se fosse obrigada a olhar o assunto de frente, teria de negar o valor da ciência ou... converter-se.

Vejamos o problema do ponto de vista desses amantes indiscriminados da ciência. Para eles, tudo aquilo que não se demonstra em laboratório entra para o domínio da fantasia. Ciências, com C maiúsculo, são para eles a Física, a Química, a Biologia, etc. Já a História lhes parece suspeita, pois é irrepetível e muito subjetiva, ao depender de testemunhas. Muito mais ainda se for história eclesiástica, e o auge do suspeito lhes parecem as histórias dos milagres. São como o Apóstolo São Tomé, que precisou ver para crer. Para esse tipo de almas incrédulas, que havia até entre os Apóstolos, Nosso Senhor realiza certo tipo de milagres, de forma que não possam alegar a falta de provas. E uma dessas provas é a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, no México.(1)

No dia 9 de dezembro de 1531, na cidade do México, Nossa Senhora apareceu ao nobre índio Quauhtlatoatzin — que havia sido batizado com o nome de Juan Diego — e pediu-lhe que dissesse ao bispo da cidade para construir uma igreja em sua honra. Juan Diego transmitiu o pedido, e o bispo exigiu alguma prova de que efetivamente a Virgem aparecera. Recebendo de Juan Diego o pedido, Nossa Senhora fez crescer flores numa colina semi-desértica em pleno inverno, as quais Juan Diego devia levar ao bispo. Este o fez no dia 12 de dezembro, acondicionando-as no seu manto. Ao abri-lo diante do bispo e de várias outras pessoas, verificaram admirados que a imagem de Nossa Senhora estava estampada no manto. Muito resumidamente, esta é a história, que foi registrada em documento escrito. Se ficasse só nisso, facilmente poderiam os céticos dizer que é só história, nada há de científico.

Os problemas para eles começam com o fato de ter-se conservado o manto de Juan Diego, no qual está impressa até hoje a imagem. Esse tipo de manto, conhecido no México como tilma, é feito de tecido grosseiro, e deveria ter-se desfeito há muito tempo. No século XVIII, pessoas piedosas decidiram fazer uma cópia da imagem, a mais fidedigna possível. Teceram uma tilma idêntica, com as mesmas fibras de maguey da original. Apesar de todo o cuidado, a tilma se desfez em quinze anos. O manto de Guadalupe tem hoje 475 anos, portanto nada deveria restar dele.

Uma vez que o manto (ou tilma) existe, é possível estudá-lo a fim de definir, por exemplo, o método usado para se imprimir nele a imagem. Comecemos pela pintura. Em 1936, o bispo da cidade do México pediu ao Dr. Richard Kuhn que analisasse três fibras do manto, para descobrir qual o material utilizado na pintura. Para surpresa de todos, o cientista constatou que as tintas não têm origem vegetal, nem mineral, nem animal, nem de algum dos 111 elementos conhecidos. “Erro do cientista” — poderia objetar algum cético. Difícil, respondemos nós, pois o Dr. Kuhn foi prêmio Nobel de Química em 1938.(2) Além do mais, ele não era católico, mas de origem judia, o que exclui parti-pris religioso.

No dia 7 de maio de 1979 o prof. Phillip Serna Callahan, biofísico da Universidade da Flórida, junto com especialistas da NASA, analisou a imagem. Desejavam verificar se a imagem é uma fotografia. Resultou que não é fotografia, pois não há impressão no tecido. Eles fizeram mais de 40 fotografias infravermelhas para verificar como é a pintura. E constataram que a imagem não está colada ao manto, mas se encontra 3 décimos de milímetro distante da tilma. Para os céticos, outra complicação: verificaram que, ao aproximar os olhos a menos de 10 cm da tilma, não se vê a imagem ou as cores dela, mas só as fibras do manto.

Convém ter em conta que ao longo dos tempos foram pintadas no manto outras figuras. Estas vão se transformando em manchas ou desaparecem. No caso delas, o material e as técnicas utilizadas são fáceis de determinar, o que não acontece com a imagem de Nossa Senhora.

Um olho da Imagem visto de perto

Talvez o que mais intriga os cientistas sobre o manto de Nossa Senhora de Guadalupe são os olhos dela. Com efeito, desde que em 1929 o fotógrafo Alfonso Marcué Gonzalez descobriu uma figura minúscula no olho direito, não cessam de aparecer as surpresas. Devemos primeiro ter em vista que os olhos da imagem são muito pequenos, e as pupilas deles, naturalmente ainda menores. Nessa superfície de apenas 8 milímetros de diâmetro aparecem nada menos de 13 figuras! O cientista José Aste Tonsmann, engenheiro de sistemas da Universidade de Cornell e especialista da IBM no processamento digital de imagens, dá três motivos pelos quais essas imagens não podem ser obra humana:

• Primeiro, porque elas não são visíveis para o olho humano, salvo a figura maior, de um espanhol. Ninguém poderia pintar silhuetas tão pequenas;

• Em segundo lugar, não se consegue averiguar quais materiais foram utilizados para formar as figuras. Toda a imagem da Virgem não está pintada, e ninguém sabe como foi estampada no manto de Juan Diego;

• Em terceiro lugar, as treze figuras se repetem nos dois olhos. E o tamanho de cada uma delas depende da distância do personagem em relação ao olho esquerdo ou direito da Virgem.

Esse engenheiro ficou seriamente comovido ao descobrir que, assim como os olhos da Virgem refletem as pessoas diante dela, os olhos de uma das figuras refletidas, a do bispo Zumárraga, refletem por sua vez a figura do índio Juan Diego abrindo sua tilma e mostrando a imagem da Virgem. Qual o tamanho desta imagem? Um quarto de mícron, ou seja, um milímetro dividido em quatro milhões de vezes. Quem poderia pintar uma figura de tamanho tão microscópico? Mais ainda, no século XVI...

Tentativa de apagar o milagre

Assim como meu conhecido não desejava falar do Santo Sudário, outros não querem ouvir falar dessa imagem, que representa para eles problemas insolúveis. O anarquista espanhol Luciano Perez era um desses, e no dia 14 de novembro de 1921 colocou ao lado da imagem um arranjo de flores, dentro do qual havia dissimulado uma potente bomba. Ao explodir, tudo o que estava perto ficou seriamente danificado. Uma cruz metálica, que ficou dobrada, hoje se conserva no templo como testemunha do poder da bomba. Mas... a imagem da Virgem não sofreu dano algum.

E ainda ela está hoje ali, no templo construído em sua honra, assim como uma vez esteve Nosso Senhor diante do Apóstolo São Tomé e lhe ordenou colocar sua mão no costado aberto pela lança. São Tomé colocou a mão e, verificada a realidade, honestamente acreditou na Ressurreição. Terão essa mesma honestidade intelectual os incrédulos de hoje? Não sei, porque assim como não há pior cego do que o que não quer ver, não há pior ateu do que o que não deseja acreditar. Mas, como católicos, devemos rezar também por esse tipo de pessoas, pedindo a Nossa Senhora de Guadalupe que lhes dê a graça de serem honestas consigo mesmas.

E-mail do autor: valdisgrinsteins@catolicismo.com.br

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Notas :

1. Para a elaboração deste artigo, utilizamos o material publicado no site http://www.reinadelcielo.org/estructura.asp?intSec=1&intId=42, ao qual remetemos os leitores interessados em mais dados.

2. http://nobelprize.org/chemistry/laureates/index.html

03/06/2007

São Vicente Leríns e o teste da Tradição


O Concílio de Trento emprega este trabalho quando fala da interpretação da Sagrada Escritura. Os católicos devem se prender à interpretação dada pela Igreja como regra, mas outra coisa é a interpretação unânime dos pais da Igreja que é declarada infalível. Ambos aspectos são tratados no trabalho de São Vicente, aonde ele indica que as Escrituras são capazes de serem interpretadas de muitas maneiras; por isso a necessidade da igreja. São Vicente diz:
"como eles [os Católicos] devem distinguir a verdade da mentira nas Sagradas Escrituras? Eles devem ter muito cuidado para seguir esse curso que, no começo deste Commonitory, nós dissemos que os Santos e homens instruídos nos comandaram a interpretar o Sagrado Canon de acordo com as tradições da Igreja universal e de acordo com as regras da Doutrina Católica, aonde Católicos e a Igreja universal, devem seguir a universalidade, antiguidade e consentimento. E se em qualquer altura uma parte opõe-se ao todo, novidade invés da antiguidade, o(s) dissidente(s) que estão no erro no consentimento do todo, ou em todos os eventos da grande maioria dos Católicos, então deverão preferir a profundidade do todo ao invés da corrupção de uma parte; na qual esse mesmo todo eles terão de preferir na religião da antiguidade ao invés da profanidade da novidade; eles devem preferir primeiramente, se tiver, os decretos gerais de um Concílio universal, e se não houver nenhum tal, eles devem seguir vários dos muitos grandes mestres da Igreja. Nos quais seus ensinos tem sido fiéis, sóbrios e escrupulosamente observados, aí teremos pouca dificuldade em detectarmos os nocivos erros dos hereges na medida que eles aparecerem."
São Vicente questiona como devemos discernir a falsa doutrina e novidades, do verdadeiro ensino da Igreja. Sua resposta é sempre a mesma. Devemos buscar referências passadas dos anciãos. Porque essa doutrina é verdadeira, e é ensinada na Igreja Universal no passado. Se uma doutrina não está implicitamente contida no que esteve ensinado sempre, conseqüentemente deva ser falsa. As regras de São Vicente são bem conhecidas:
"além disso, na própria Igreja Católica, todo o cuidado possível deve ser tomado, para que nós possamos manter essa Fé que fora acreditada em toda parte, sempre, por todos. Pois isso é verdadeiramente e estritamente "Católico," na qual o próprio nome e razão declara, compreende toda universalilade. Esta regra nós devemos observar e seguir universalmente, antiguidade e consentimento.

(continuação em breve)

05/05/2007

Vá para o Limbo!


Depois que o papa Bento XVI recusou-se a assinar o documento que falsifica a doutrina sobre o Limbo das crianças mortas sem batismo, chega-nos agora a notícia de que o documento acaba de ser publicado com a autorização do Pontifice. Método típico da Revolução, que toma atalhos extra-oficiais apimentados com uma ou duas mentiras difíceis de serem confirmadas. Ou será que, de fato, teria o papa autorizado a publicação? Por enquanto não encontrei nenhuma versão oficial da notícia, mas o texto é citado pelas agências de informação.

Quanta asneira dizem esses falsos teólogos! Quanta arrogância e pretensão, de querer enganar o povo fiel com argumentos tendenciosos e de falsa doutrina. Basta uma formação média na doutrina para sentir o cheiro da heresia. Iniciam seu raciocínio com a questão da vontade de Deus. Dizem estes senhores que Deus é misericordioso e quer a salvação de todos os homens. Dizendo assim, parece que a Igreja Católica, de tantos santos doutores, de um Sto Anselmo que festejamos neste dia 21 de abril, de um São Tomás de Aquino, de tantos santos papas, não percebeu, ao longo de seus dois mil anos, a límpida verdade. Ora, ora... descobriram a pólvora! Deus quer a salvação de todos os homens! Pois eu digo que se Jesus Cristo estivesse diante desta tal comissão, diria: "Raça de víboras"! porque não apresentam aos fiéis a doutrina completa sobre a vontade de Deus? Porque não dizem que, na sua vontade absoluta, sim, Deus só pode querer a salvação de todos os homens. Mas na sua vontade aplicada, ou seja, diante da realidade de cada um dos homens, a vontade de Deus como que respeita as circunstâncias das causas segundas, da vontade livre do homem, da situação das almas, dos atropelos da vida. A vontade de Deus só se torna eficaz com a colaboração do homem. Se assim não fosse, seríamos robôs, e não seres criados à imagem e semelhança de Deus.

Depois de falsificar assim o princípio básico do raciocínio, a quadrilha de "teólogos" parte para outra frente de combate revolucinário: a doutrina do Limbo seria apenas uma hipótese teológica. Desconhecem estes bastardos da fé o modo como a doutrina da Igreja forma sua unidade coesa e sólida? Claro que sabem. Mas escondem e querem impor a novidade a qualquer preço, e escondem a verdade. E onde está a verdade? É dogma ou não é dogma? A verdade é que a teologia católica não é feita apenas de dogmas. Existem muitas verdades anexas aos dogmas, as quais, se forem negadas, atingem em cheio o dogma a que elas se referem. Por isso elas são intocáveis, não havendo autoridade neste mundo que as possa mudar. No caso do Limbo, o dogma do pecado original e o dogma da necessidade do batismo para a salvação. Com que autoridade podem eles sair por aí, numa revista americana, com ou sem o aval do Vaticano, dizendo que o Limbo é uma hipótese? Hipótese é Vaticano II, meus senhores! Hipótese é esta tese revolucinária, anti-católica, herética e que só serve ao senhor das Trevas. E porque razão pretendem estes modernistas evolucionistas, prestidigitadores, que os católicos deixem de dar seu assentimento de fé ao que a Igreja sempre ensinou, com a garantia de dois mil anos de santos e santidade, para aderir a eles? E por quanto tempo, pergunto eu, deveriam os católicos "obedecer" a estas fantasias? Até que um próximo passo seja dado e um documento novo venha acrescentar que, na verdade, não é só o Limbo que não existe, mas o inferno também?

Do mesmo modo, ao afirmar que é pela misericórdia de Deus que se estabelece esta novidade, mostram o total desconhecimento dos dogmas referentes a Deus. Reduzem a misericórdia divina a um sentimento humano, onde Deus teria pena das crianças mortas sem batismo, como se fosse possível para Deus ter sentimentos de pena e agir como um homem poderoso que agracia um criminoso que lhe pede perdão. Quanta fantasia. E dizem que são teólogos! Os autores tentam afirmar que esta doutrina não atinge o dogma do pecado original. Vamos mostrar que atinge sim.

A questão do Limbo está ligada intimamente à doutrina da necessidade do batismo para se entrar no Céu. Isto é um dogma da nossa fé, declarado explicitamente por Nosso Senhor a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito Santo não entrará no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne e o que nasceu do Espírito é espírito." (S. Jo, 3,5) Já aqui nos deparamos com uma justificativa dos modernistas de quererem acabar com o Limbo. De fato, depois de Vaticano II, estabeleceu-se a prática de deixar o batismo para um momento em que a pessoa possa escolher. Prática certamente diabólica, pela qual muitas almas, já contaminadas pelas tentações, tomaram o caminho do pecado e se embrenharam nas trevas do inferno. Porque, se é indiferente às crianças antes da idade da razão, morrerem com ou sem batismo, então desaparece a necessidade de batizar-se desde o nascimento. Mas não é esta a Tradição dos Apóstolos: "A Igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de batizar também as criancinhas" (Orígines, Ad Rom. VI,6). E o Concílio de Trento determinará que sejam batizadas as crianças recém-nascidas "ex traditione Apostolorum" (Dec. sobre o Pecado Original, 4). Sejamos honestos: não se pode dizer que o Limbo não existe porque Deus, na sua misericórdia, leva as almas das crianças para o céu mesmo sem batismo e, ao mesmo tempo, afirmar que esta nova doutrina não afeta o dogma do pecado original e da necessidade do batismo.

Vários erros grosseiros são cometidos por esta super "Comissão Teológica Internacional", da Congregação para a Doutrina da Fé. Segundo as citações apresentadas pela imprensa, um dos membros "acrescentou que os muitos fatores analisados oferecem a suficiente base teológica e litúrgica para se acreditar que as crianças que morrem sem batismo se salvarão e gozarão da visão beatífica". Pelo visto estas razões teológicas são tão fracas quanto o argumento levantado na notícia: Para este membro da Comissão, no caso das crianças mortas antes da idade da razão, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado. Oh! trevas da ignorância; Oh! astúcia do antigo inimigo! A quem querem estes senhores enganar? Pois quem foi que disse que as crianças mortas sem batismo vão para o Limbo por causa do pecado? Este senhor acaba de provar que o Limbo existe, pois se a razão da não existência do Limbo é uma suposta prevalência da misericórdia sobre o pecado, basta assinalar a doutrina católica que dá razões bem diferentes para a existência do Limbo e todo o trabalho desta comissão será posto a nu diante de todos, como mais uma armação contra a fé católica.

De fato, o que obriga a existência do Limbo é a ausência de vida sobrenatural antes do batismo. Esta ausência se deve à presença do pecado original, sua marca na alma. Mas a presença do pecado original não significa que exista a culpa do pecado original, sendo esta atribuída a Adão e Eva. Não havendo a culpa, não há como se contrapor a este pecado a misericórdia de Deus. Esta só poderia ser apresentada como argumento diante de pecados pessoais, com a culpa correspondente. Mas, por definição, estes pecados atuais não existem na alma das crianças antes da idade da razão. Não há como negar, isso é dogma da nossa fé (e eles afirmam que o Limbo nada tem a ver com o dogma!) Quando um bebê nasce, ele possui a alma espiritual em estado natural: capacidade de conhecer, pela razão natural, e capacidade de amar, por atos livres da sua vontade. Mas ela não está apta, apenas por sua natureza, a ter em si a presença de Deus, a graça santificante, a posse do Divino Espírito Santo. Em outras palavras: ela não é o templo da Santíssima Trindade. Deus Nosso Senhor quis que só mediante o batismo nos fosse dada, em acréscimo, esta capacidade de vida sobrenatural. (cf. S. Marcos 16, 15) Se alguém achar isso injusto, que vá se entender com Nosso Senhor lá na porta do céu. Não temos o que discutir o que é Revelado por Deus, basta-nos o ato de fé; e o batismo é o meio de obter a vida da graça, sendo, certamente, o melhor para nós, o mais fácil, o mais comum, o mais usual. As Sagradas Escrituras nos trouxeram pelo menos um exemplo maravilhoso desta imensa bondade e misericórdia de Deus, que facilitou a entrada de tantas almas na visão beatífica: o batismo é dado com água, e qualquer pessoa pode batizar. Foi na estrada de Gaza, onde viajava o eunuco da Rainha da Etiópia, sentado em um carro, lendo o livro de Isaías. A ele foi enviado o diácono Felipe, por obra do Espírito Santo. E ali mesmo, na beira da estrada, o pobre homem pergunta a Felipe: "Eis água, que motivo me impede de ser batizado". (Atos, 8, 26) E Felipe o batiza, na beira da estrada, em açude ou riacho, e o milagre se consuma: aquela alma já não é um pagão, já não é incapaz da graça, mas tornou-se luminosa, filho de Deus, plenamente apta para a vida sobrenatural e mergulhada nela. E este milagre, os falsos teólogos querem roubar das criancinhas, atacando um dos flancos da muralha protetora da fé, que é o Limbo.

O que é o Limbo?

Diante da guerra levantada contra a doutrina católica sobre o Limbo, as pessoas sem formação tendem a pensar que este lugar é um castigo, quando na verdade não é. Trata-se de um lugar apropriado para a capacidade de uma alma humana impedida, pela presença do pecado original, de ter a vida sobrenatural. E o que acontece com esta alma, no Limbo? Ela vai agir segundo as suas capacidades naturais, e isto vai depender da idade em que tiver morrido. Se chegou a desenvolver um pouco sua inteligência e sua vontade, poderá receber algum conhecimento natural de Deus e dos eleitos do paraíso, que lhe trará uma felicidade natural compatível com o seu estado. É, portanto, um lugar de paz, de felicidade natural. Não é um lugar de visão beatífica, porém isso não afeta as almas dali, pois elas não têm nem mesmo a noção do que seja a visão beatífica, não podendo assim desejá-la ou sentir inveja dos eleitos do Paraíso. Ao contrário, Deus pode perfeitamente alegrar estas alminhas permitindo que algum lampejo da luz do Céu venha iluminar este lugar, como fogos de artifício para que batam palmas ao Criador.

Onde querem chegar?

Vários erros modernistas, da Nova Teologia de Henri de Lubac, von Balthasar e outros exigem as mudanças que esta comissão tenta empurrar goela abaixo aos católicos. Toda a Nova Teologia e Vaticano II baseiam-se na redução da ordem sobrenatural à ordem natural. Ou seja, a graça e a glória do céu deixariam de ser acréscimos sobrenaturais dados gratuitamente por Deus, para fazerem parte da própria natureza do homem. A partir daí, fica fácil introduzir outras novidades, como a salvação universal de todos os homens, já ao nascer, ou ainda o emparelhamento de todas as religiões como sendo eficazes para salvar os homens. De fato, se as crianças mortas sem batismo vão necessariamente para o céu, já não se faz necessária a fé católica, abre-se a porta para o ecumenismo radical e alucinado proposto durante mais de trinta anos por João Paulo II. Abre-se também as portas para canonizações de pessoas que, pelos critérios católicos, nunca alcançariam os altares. O próprio João Paulo II, absurdamente proposto para ser beatificado; Madre Tereza de Calcutá, a queridinha da mídia mundial, que proibia que fossem batizados, em seus hospitais, as crianças em perigo de morte vindas de outras religiões. Se elas iriam para o céu, então esta atitude seria tolerável, mas se a doutrina verdadeira, do Limbo, é a tradicional, então esta religiosa nunca poderá ser canonizada pelos ritos tradicionais, tendo impedido tantas e tantas alminhas de irem para o céu.

Ainda na questão das intenções destes agentes do mal, devemos assinalar a frase citada na imprensa: "o limbo representava um "problema pastoral urgente", pois há cada vez mais crianças que nascem de pais não católicos e que não são batizados e também "outras que não nasceram ao serem vítimas de abortos". A se confirmar o teor desta afirmação, estamos diante de um curioso critério dogmático: já que Vaticano II derrubou a fé católica no mundo inteiro, aumentou consideravelmente o número de crianças nascidas de pais não católicos. Cabe então, segundo a frase citada, uma modificação no dogma católico, para arrombar a porta do céu, explodir tudo, deixar entrar todo mundo, batizado ou não batizado, vindos de pais católicos ou não. É impressionante a pretenção dos desvairados: arrombaram as portas da Igreja com sua "abertura ao mundo" e com isso acham, sem se darem conta do ridículo, que abriram também as portas do céu.

Não estamos mais em 1965, ou em 1969. Naqueles dias, os católicos enguliram a heresia progressista sem perceber e hoje já não sabem mais o que são. Diante destes fatos urge ao católico armar-se com a armadura de Deus, resistindo-lhes fortes na fé, com a espada da verdade, o elmo da salvação, a alegria no coração no bom combate, na esperança da salvação, na vida eterna do céu.

Dom Lourenço Fleichman OSB
http://www.capela.org.br/Artigos/limbo.htm

01/04/2007

Ateísmo e Fé


“Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam” (Oração do Anjo de Portugal – Fátima, 1916).

Há algum tempo, um articulista do suplemento cultural de prestigioso jornal, reconhecendo a antipatia que a palavra ateu causa na maioria das pessoas, propôs, copiando a idéia de outros ateus americanos, que aquele nome seja substituído por outro mais simpático, com carga de significado positiva, por exemplo a palavra “brilhante” (bright no original), à semelhança do que fizeram os homossexuais ianques ao autodenominarem-se gays (alegres), para amenizar o antagonismo suscitado em outrem por seu modo de vida.

Os autores da “brilhante” idéia criaram um site com a lista dos maiores ateus da história, “para encorajar outros a assumir seu ceticismo, sua noção não-religiosa da realidade, sua dúvida em relação a entidades imateriais”, acrescenta o ateu nativo.

Outro americano, um biólogo, também gestor de um site, que logo aderiu ao movimento, anotou que “nós, os brilhantes, não acreditamos em fantasmas ou elfos ou no coelhinho da Páscoa – nem em Deus”.

Não há como deixar de sorrir ao ler a proposta, pela franqueza quase ingênua com que essas mentes “brilhantes” desvendaram em público as mais recônditas razões de seu ateísmo, que se entremostram sob a convencional ostentação vaidosa, baseada na pseudofundamentação científica de sua crença.

O ateísmo rejeita a natureza espiritual do homem, embora a sua mera existência e condição de ser racional clamem em favor dela. O ateísmo é, portanto, uma revolta contra a natureza. Daí a aversão que a própria palavra suscita - como bem observaram os proponentes da idéia - no comum das pessoas. Daí também a inutilidade de mudar-lhe o nome – “a rosa, com outro nome, teria o mesmo cheiro”, diz a Julieta de Shakespeare – pois certas coisas têm odor inconfundível com qualquer nome.

Não deixa de ser curiosa a solução proposta. Assim como a alegria genuína só pode florescer na conformidade com a própria natureza - e por isso mesmo os santos são com justeza chamados “Beatos” (felizes), pois realizaram a plenitude de sua individualidade num desabrochar espiritual – também a razão humana só refulge plenamente ao reconhecer a própria contingência, e sujeitar-se à suprema inteligência do Criador do universo.

Analogamente, a palavra “brilhante”, em sentido figurado, sempre significou “ilustre”, “próspero”, “arrebatador”, e também “feliz”, aplicando-se em especial àquelas mentes privilegiadas, capazes, não só de um relâmpago de súbita compreensão, mas também de reduzir as outras pelo fulgor da inteligência. Ao contrário, é um paradoxo autodenominarem-se “brilhantes” indivíduos cuja mente opaca, porque centrada num auto-suficiente narcisismo, revela-se mais impenetrável à luz da verdadeira intelectualidade. Para esses mais calharia o epíteto de “tenebrosos”.

Ao inverso do que procuram fazer crer alguns ateus, o ateísmo nunca é conseqüência de madura reflexão, ou resultante inelutável do conhecimento científico ou filosófico; é freqüentemente uma escolha pré-racional de ordem metafísica, fruto de orgulho e rebeldia, uma manifestação da puberdade intelectual, como a acne o é da biológica.

Para afirmar o próprio ego, o adolescente busca rejeitar a autoridade; a constatação é de psicologia elementar. Não é raro, nesta fase, a rebeldia juvenil manifestar-se como ateísmo Só que com o tempo o jovem normal supera essa etapa, insere-se como indivíduo e como ser humano na ordem hierárquica da sociedade e do mundo. Amadurece e torna-se adulto, freqüentemente retornando à fé aprendida na infância, numa volta superior da espiral de crescimento intelectual, ou, se não a teve, buscando com sinceridade respostas às grandes questões metafísicas, o que pode levar à conversão.

Pode dar-se que o ateísmo juvenil perdure por inércia na idade adulta, por falta de reflexão ou desinteresse; assim também há indivíduos “religiosos” por inércia, a carregar uma “fé” puramente social e convencional. Ateus (e crentes) deste tipo são em geral tolerantes, e, se bem formados, respeitadores das crenças alheias.

Coisa bem diversa é ateísmo militante, cujos aderentes encaram a descrença como dogma, e a destruição da fé em Deus como um apostolado. Esses, em sua revolta anti-espiritual contra a autoridade divina, fixam-se na adolescência, e elegem o próprio ego como deus de si mesmos. A posteriori, buscando justificativas racionais para a escolha feita, encantam-se ainda mais com a própria inteligência, sobretudo se adquiriram um cabedal de informações científicas e filosóficas, ou lograram reconhecimento da seleta igrejinha do mundo acadêmico, cujo shibboleth consiste precisamente na profissão de fé materialista e atéia.

Todavia, ao contrário do que propalam, sua opção nada tem de racional, explicando-se melhor por um processo emocional.

Ilustração exemplar desse processo é fornecida, numa narrativa autobiográfica, pelo jornalista e escritor Paulo Francis, ex-guru de uma geração de esquerdistas brasileiros antes de renegar o marxismo, o que o transformou ipso facto na besta-fera do seu antigo cortejo de aduladores

Francis, que infelizmente recalcitrou no ateísmo até sua morte repentina, assim descreve o episódio de sua “conversão”:

“Foi no estribo de um bonde, ... que, finalmente, cheguei à conclusão de que God não existia. Eu vinha discutindo comigo mesmo há (sic) meses, a polêmica mais difícil que já tive na minha vida, e, de repente, as peças do quebra-cabeça entraram todas no lugar. Uma sensação maravilhosa, uma prize (sic), o corpo todo se relaxou, o vento na cara ficou vivo, a mão no balaústre se fortaleceu (“Paulo Francis Nu e Cru”- Editora Codecri – Rio, 1976 – p. 89)”.

Como se vê, a opção ateísta nada tem de racional: onde se nota, no relato de um dos mais brilhantes e festejados intelectuais brasileiros do último quartel do século XX, qualquer indício de racionalidade? Onde o silogismo, onde a prova intelectual, onde o cabedal de informação científica que é alardeado pelos “brilhantes” como fundamento de seu ceticismo?

Ao contrário, a crer em Francis (e nada indica que o seu processo difira do de outros ateus, a não ser na sinceridade do relato), a opção pela descrença antes resulta de uma prise pré-intelectual que se aproxima curiosamente do que um zen-budista denominaria de “pequeno satori”. O processo vivenciado por ele guarda analogias com a técnica zen denominada koan: o praticante rumina continuamente durante longo tempo um paradoxo insolúvel (por exemplo: “como era meu rosto antes de nascer?”), até que a mente exausta rende-se e deixa ruir o arcabouço conceitual.

Isto permite que o indivíduo experimente uma súbita percepção da realidade sem a interferência dos processos mentais, cujo sintoma mais claro, no caso de Francis, foi a nitidez de suas sensações físicas: o vento no rosto, a força ao empunhar o balaústre. Ao mesmo tempo, “todas as peças do quebra-cabeças encaixaram-se em seus lugares”. Trata-se, obviamente, de uma experiência emocional, quase mágica, logo anti-racional.

A diferença é que o praticante zen interpreta essa experiência em termos da Weltanschhaung budista: “não há eu nem outro, apenas a natureza de Buda”, e a isto denomina satori, ou iluminação. Francis, sem essa referência, interpretou-a em termos de uma “conclusão” pela inexistência de Deus, quando o que se esfumara fora apenas a “idéia” de Deus por ele formulada: na verdade um ídolo modelado pela mente do próprio sujeito. Trata-se aqui, mais uma vez, do clássico erro do pensamento moderno, de tomar o “conhecer” pelo “ser”, a confusão entre gnosiologia e ontologia: “o que existe em minha mente é real; o que não existe em minha mente não é real”. Eis aí toda a tragédia do nosso tempo.

Por conseguinte, embora ostentados como de rigor pelos ateus falantes, tais como os auto-intitulados “brilhantes”, o descortino intelectual e o conhecimento científico nada têm a ver com o ateísmo. Muitos dos ateus mais empedernidos ostentam uma ignorância impenetrável sobre tudo o que não se relacione aos seus próprios conceitos, que a seu ver constituem nada menos que a enciclopédia do conhecimento.

Acreditando compor uma seleta elite, esses ateus, ao fazerem da própria descrença um dogma e da “ciência” uma seita, olham de cima para os que crêem em Deus, considerando-os como pessoas de mentes infantis, incapazes de escalar as alturas de sua própria compreensão. Isso os infla ainda mais de auto-importância e satisfação consigo mesmos.

Essa visão tem a vantagem suplementar de permitir a criação de uma moral “ad hoc”, da qual tudo que é penoso pode ser excluído. “Se não há Deus, tudo é permitido”, clama uma personagem de Dostoievsky”, creio que o Raskolnikov de ”Crime e Castigo”. Sendo assim, cada um pode gozar a vida como lhe parecer. Isso e mais o louvor dos doutos: que mais pode um ego desejar?

Como a inexistência de Deus carece de prova filosófica – ao contrário de sua existência, demonstrada racionalmente desde Aristóteles (vide artigo a tal propósito neste site) – o ateu inseguro, mas presunçoso, precisa reforçar a própria descrença (ou antes, crendice) pela corroboração de outros egos e o aplauso público.

Daí a necessidade de criar um site com o rol dos ateus famosos, em cuja seleta companhia o ateu medíocre complacentemente se coloca, “brilhante” entre seus iguais, mas olimpicamente acima da humanidade ordinária. Apenas, infelizmente, não se podem incluir naquele rol Aristóteles, fundador da ciência ocidental; nem Descartes, pai do racionalismo moderno; nem Galileu, ícone predileto do martiriológio anti-católico, mas ele próprio auto-proclamado católico; nem Einstein; et caeteri , apenas para citar alguns dos reconhecidos pelo establishment acadêmico.

Daí também a arrogância ridícula de lançar no mesmo balaio a crença em Deus e no coelhinho da Páscoa, como fez o tal biólogo ianque, para desqualificar intelectualmente, de maneira bem pouco científica e nada ética, aqueles que professam ponto de vista diverso do dele próprio. A crença em elfos e fantasmas calha melhor ao ateísmo que ao teísmo, pois, como disse Chesterton, o problema do céptico não é não crer em nada, mas sim crer em tudo.

Os falsos “brilhantes” crêem, sim, em elfos, fantasmas e no coelhinho da Páscoa, desde que convenientemente apresentados em jargão acadêmico, bem disfarçados com a capa do racionalismo – essa fé irracional na razão – e devidamente chancelados com o aval da “comunidade científica”.

Embora invocando Dawkins, autor de “O Relojoeiro Cego” (ou seria “O Biologista Cego”?), que afirma que a natureza tem design, mas não designer, o subscritor do artigo admite que “afinal, a ciência não pode responder a perguntas como ‘O que existia antes do que existe?’”.

Trata-se de um rasgo de honestidade intelectual que obrigaria qualquer ateu, que não cegado pela paixão dogmática, a conceder à crença em Deus pelo menos o benefício da dúvida.

Não é essa a conduta de Dawkins, que no livro citado busca precisamente comprovar “cientificamente” a inexistência do “Designer” da natureza. É uma tentativa canhestra. Numa de suas linhas de argumentação vale-se de um programa de computador, apto a formar uma sentença de Shakespeare a partir da combinação “casual” das letras do alfabeto.

Esqueceu-se o ilustre sábio de que, sem um experimentador inteligente, capaz de conceber o computador e o programa, e determinado a alcançar um objetivo preciso (a “demonstração” em causa), não haveria experimento possível. Isto para não mencionar a necessária preexistência do idioma inglês e da obra do dramaturgo de Stratford, presumivelmente, também, produtos da inteligência e da intenção.

Para efetivamente comprovar a possibilidade de produzir-se um “design” sem “designer”, o sagaz cientista deveria realizar um experimento sem experimentador, pois este, forçosamente, assume a função de Criador do seu micro-sistema, demonstrando assim o oposto do que pretendia.

Mas não se trata de uma exceção, pois muitos ateus e materialistas abusam da equivocidade do termo “ciência” para eximir-se de comprovar a razoabilidade da própria crença.

Cumpre distinguir entre ciência como método de conhecimento experimental do mundo fenomênico, apto a produzir conclusões verdadeiras no estreito âmbito de sua competência, mas que obviamente não pode mesmo responder às grandes indagações metafísicas, e “ciência” como seita, pseudo-religião, ou anti-religião, e como tal congregação de aderentes a um conjunto de proposições filosóficas hipotéticas, mas tidas como apodícticas, porque pretensamente demonstradas pela “ciência” na primeira acepção.

Essa distinção é propositalmente escamoteada pelos ideólogos do ateísmo, que deslealmente apresentam teorias e hipóteses incomprovadas e incomprováveis como verdades científicas cabalmente demonstradas, no afã de demolir a fé em Deus e ridicularizar aqueles que nele crêem. Não por acaso, em recente entrevista, aquele mesmo ideólogo materialista declarou seu “desprezo” por quem crê num Deus criador. Tal comportamento sectário aproxima-o dos mais estreitos fanáticos de falsas crenças religiosas - “et pour cause”.

O “ateu de passeata” é o análogo complementar do falso crente: acredita piamente em si mesmo e na própria incredulidade, como aquele na própria “idéia” de Deus. Ambos são, no fundo, adoradores de si mesmos.

Ao revés, o homem que crê em Deus e professa a Revelação contida na doutrina católica, embora também sujeito, em razão do pecado original, à tirania do egoísmo, aceita a priori a própria contingência: sabe-se finito, mortal e sujeito a leis – naturais e morais - que não criou nem pode alterar. Essa humildade embrionária é o solo no qual pode germinar, pela graça da Fé, a virtude da Fé.

Fé não é crendice, nem ausência de dúvida, inerente à própria condição humana, tal como se apresenta após a queda. Fé é, ao mesmo tempo, graça e virtude.

A Fé enquanto graça é um Dom gratuito de Deus: não pode crer senão aquele a quem Deus concedeu esse favor, sendo a predisposição necessária para tanto a constatação da própria insignificância, aquela humildade embrionária acima referida, e a aceitação do magistério da Igreja. A graça, uma vez aceita e não impedida, torna-se habitual no “estado de graça”, cultivado pela observância dos Mandamentos e a freqüência aos Sacramentos. Age eficazmente na alma, suscitando a virtude teologal do mesmo nome, coirmã da Esperança e da Caridade.

Fé enquanto virtude é algo que pode crescer, como um “organismo espiritual”, em sinergia com outras virtudes, pela prática da oração e sempre sob o influxo da graça, até o desabrochar de uma plenitude de certeza, que já é contemplação. O fim da contemplação é o amor de Deus, a Caridade, a última das virtudes, a consumar-se na visão Beatífica, e o primeiro e maior dos mandamentos:

“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas forças” (Mc 12, 28).


Victor Peregrino, A.C.Montfort

27/02/2007

Líder "carismático" Frei Raniero CantalaMesse aprontam novamente...!




Não bastasse o Frei Raniero ter participado das "orações e bençãos" que fizeram Cardeal Jorge Bergoglio se ajoelhar aos pés de hereges na Argentina, desta vez, Frei CantalaMESSE passa pelo ridículo de ter ficado de fora do estádio aonde acontecia uma "cruzada" de ninguém menos que: Benny Hinn!!!!!





Isso mesmo: Benny Hinn!!!!!!!!!!




E teve a mesma coragem e despautério em receber "orações" deste que é, um dos, se não "o" pior (se é que existe pior e menos pior nesta trágica situação) dos hereges da linhagem pentecostal...! Eis o link:




Os três últimos parágrafos traduzidos:



Frei CantalaMESSE tentou atender, em Setembro, a Cruzada em Roma do Pastor Benny Hinn; mas foi um dos 6,000 que não puderam entrar na arena dado a capacidade de pessoas que já se encontravam lá dentro.


De qualquer forma, ele assistiu o serviço no telão que se encontrava do lado de fora da Palalottomatica e ficou imprecionado com a ênfase em Jesus Cristo Nosso Salvador e Curador.


Depois de meses tentando marcar em suas ocupadas agendas uma reunião, Pastor Benny e Padre CantalaMesse finalmente puderam estar frente-a-frente para uma longa e privada discurssão. Depois da reunião, eles rezaram um para o outro (Veja foto ao lado), Pastor Benny presenteou Padre CantalaMesse com um DVD contendo os "melhores momentos" de sua "Cruzada" em Roma, e um raro selo de amizade foi formado neste pequeno tempo que ficaram juntos.




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Um padre que não pode atender a "Cruzada" de um tremendo herege, mas que ainda assim se impreciona(sic), do lado de fora, assistindo por um telão(!) a "ênfase" em que "jesus cristo" curava... ts!


E mais, recebe novamente "orações" dessas mãos condenadas... Ahhh, e pra quem não conhece o "pastor" Benny Hinn; primeiramente dê graças á Deus, e em seguida, conheça o infeliz (virtualmente), ele que já esteve no Brasil com suas "cruzadas"...infelizmente!


Este vídeo contém alguns efeitos sonoros supostamente engraçados, mas isto é sério, muito sério; confira:



---E pra quem entende inglês, eis uma matéria com direito a mini-câmeras escondidas desmascarando este pseudo "pastor", aonde mostram até uma das "curadas" de câncer morrendo pouco depois da "Cruzada milagrosa"... de câncer!.


Mostram também DIÁRIAS nos melhores hotéis por onde ele passa, que chegam a estonteante marca de U$2,700 a DIÁRIA(!). Fora suas mansões, suas férias paradisíacas, etc etc etc... Vale a pena conferir: (*Vídeos postados anteriormente foram retirados pelo autor do You Tube) Mas não faltam outros menos cabulosos:











E pensar que um PADRE se dá o ridículo de assistir, do lado de fora e num telão(!) as "maravilhas" de um famoso e egocêntrico herege... E pior, receber "orações" de tal monstro! Sim , monstro!!!

Isso é um TREMENDO sacrilégio, como podem rebaixar a Igreja de Cristo a este ridículo sem que NINGUÉM tome as devidas providências?!?!

Que isso sirva de alerta aos chamados "católicos carismáticos". Até quando continuarão tentando nivelar a ÚNICA Igreja de Cristo com essas seitas escandalosas e condenadas??? Até quando???
São Domingos, rogai por nós!
Virgem puríssima, rogai por nós!



Eis este herege monstruso em passagem pela terra que uma vez chamara terra de Santa Cruz:




(siga partes 2, 3 e 4 ao lado do vídeo disponível)

Brother Pius V
T.O.P


KYRIE ELEISON, CHRISTE ELEISON!

24/02/2007


"O CÓDIGO DA VINCI"
Ficção ou realidade? Mito ou verdade?

Pe. Jesus Hortal, S.J.
Reitor da PUC-Rio



I. A obra: suas fontes e comentários



Um verdadeiro fenômeno editorial. Mais de quarenta milhões de exemplares, vendidos em pouco mais de dois anos. Traduzida para mais de cinqüenta línguas, e transformada num filme thriller, a obra de Dan Brown, embora qualificada pelo próprio autor de "romance", despertou dúvidas e questionamentos no ânimo e até na fé de muitas pessoas, inclusive de algumas que pensavam ser fiéis aos ensinamentos da Igreja. Nas páginas do Código, parece renascer o antigo problema teológico do cristianismo – a conciliação entre a dupla realidade, divina e humana, do Cristo – misturado ao velho panteísmo naturalista, encarnado no mito do eterno feminino. É, sem dúvida, comida requentada, mas com novos temperos. Então por que o sucesso editorial? Exatamente pelos "temperos".



O autor emprega técnicas bem atuais, calcadas nos filmes policiais e de espionagem: mudança rápida e contínua de cenário; desenrolar simultâneo de duas ou três tramas diferentes, mas entrelaçadas entre si; grande dose de violência, em boa parte gratuita; envolvimento de serviços secretos, com o emprego de técnicas sofisticadas. Até a presença de um mordomo, Rémy, que, apesar das aparências, não é o maior vilão da história. E não falta certa dose de erotismo, embora intelectualizado, quase que um voyeurismo acadêmico. Sobre isso, vai ainda uma cobertura de cientificismo barato e aparente erudição.



Mas a pimenta mais excitante empregada pelo autor talvez se encontre no questionamento subtil dos princípios cristãos, não de uma vez, mas lentamente, de modo insinuante. Sem perceber, o leitor acaba por querer descobrir não o autor do assassinato do curador do Museu do Louvre – como seria lógico num romance policial – mas o terrível segredo escamoteado durante séculos e que causa arrepios no mundo inteiro, sem que ninguém saiba exatamente do que se trata. Por isso também, no final, o romance resulta extremamente decepcionante: os guardiões do segredo não estão dispostos a revelá-lo e o velho professor de semiótica, transformado em detetive, se contenta com uma contemplação imaginativa à luz das estrelas.



O Código Da Vinci não é uma obra original. O próprio Dan Brown, que, em geral, lança afirmações gratuitas, aludindo genericamente a supostas provas, faz uma exceção no capítulo 60, onde cita quatro obras, embora sem dizer quem são os autores. Trata-se dos seguintes livros:
– A Revelação dos Templários – Guardiões Secretos da Verdadeira Identidade de Cristo.
– A Mulher do Vaso de Alabastro – Maria Madalena e o Santo Graal.
– A Deusa nos Evangelhos – O Resgate do Sagrado Feminino.
– O Santo Graal e a Linhagem Sagrada – O Best-seller Aclamado Mundialmente.
Embora, pelo menos, dois desses livros tenham sido traduzidos para o português e publicados no Brasil, nenhum deles teve grande repercussão no nosso meio, possivelmente por causa de seu estilo pseudo-erudito, pouco digerível para o grande público. Contudo, pode-se dizer que Dan Brown bebeu neles todas as suas idéias. Por isso, eu dizia anteriormente que O Código Da Vinci não é original e que se trata de comida requentada com novos temperos.



Dan Brown se insere, pois, numa corrente literária neopagã, que pretende ressuscitar religiosidades perdidas, quer orientais, como os cultos de fertilidade do Oriente Médio, a mitologia germânica ou a mitologia céltica e que vê no cristianismo e, mais especificamente, na Igreja Católica, uma religião dos fracos e acomodados, incapazes de compreender as falsificações a que a doutrina de Jesus teria sido submetida. Como o nosso autor, também esses outros apelam para o mito do eterno feminino e dizem apoiar-se em manuscritos antigos, ocultos ou perdidos, nunca reproduzidos fielmente. Como amostras dessa corrente, citemos duas obras, uma literária e uma cinematográfica: o romance As Brumas de Avalon e o filme Stigmata. O primeiro é, na concepção da autora, a narração da saga do Rei Artur do ponto de vista das mulheres; o segundo, uma pretensa interpretação dos Evangelhos gnósticos encontrados nos papiros de Nag Hamadi. O curioso é que, citando genericamente os mesmos documentos, o filme e Dan Brown chegam a conclusões diametralmente opostas. Stigmata, de fato, rejeita qualquer religião organizada e coloca o centro da espiritualidade no interior do próprio homem. Brown, pelo contrário, parece advogar por uma re-institucionalização dos cultos pagãos da fecundidade e da adoração do eterno feminino.




Um livro com tais características não poderia deixar de suscitar grande número de comentários, incluindo desmentidos oficiais, por exemplo, do Opus Dei. Basta contatar, por meio da Internet a livraria Amazon e logo aparecerá uma literatura polêmica em torno de O Código Da Vinci. Contra o que se poderia esperar, por ser a obra de Dan Brown fundamentalmente anti-católica, há também refutadores protestantes numerosos. Sem pretender esgotar o tema, posso citar alguns livros desse tipo, vários dos quais já foram traduzidos para o português:como Decodificando Da Vinci (Cultrix, 2004); Quebrando o Código Da Vinci (Novo Século, 2004); Revelando o Código Da Vinci (Madras, 2004); A Fraude do Código Da Vinci (Editora Vida, 2004); Os Segredos do Código (Sextante, 2004) Não sei se foram traduzidos para a nossa língua, mas também podemos citar outras obras do mesmo tipo, publicadas nos Estados Unidos: The Da Vinci Hoax. Fact and Fiction in the Da Vinci CodeSeria interminável citar as recensões e os artigos aparecidos em revistas e jornais. É claro, pois, que O Código é um livro lido e discutido, que provocou certa confusão mental em numerosas pessoas, incluindo alguns católicos que pensavam ser fiéis seguidores da Igreja.



Ao mesmo tempo, porém, podemos afirmar que se trata de uma obra de ficção, sem base em fatos e até propositalmente mentirosa. Examinaremos, portanto, alguns aspectos bem concretos da obra, para mostrarmos as suas contradições internas e as suas falhas históricas e científicas.



II. As referências às obras de Leonardo



Contra o que é comum em romances e filmes, onde, normalmente, para evitar reclamações de indivíduos que possam sentir-se aludidos, se declara que qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é pura coincidência, Dan Brown coloca, logo no início, uma página com o título "FATOS". Qualquer leitor atento poderá, porém, perceber que, ao contrário do que é afirmado, os tais "fatos" se distanciam fundamentalmente da realidade. Examinemos, pois, o que Brown pretende que o leitor aceite sem discussão, embora sem observarmos a ordem do autor.



O terceiro "fato" tem a seguinte formulação: "Todas as descrições de obras dearte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade". É incompreensível que uma pessoa que pretende ser séria possa afirmar uma coisa tão falsa. Ao longo deste trabalho veremos um bom número de inexatidões e mesmo de falsidades veiculadas no "Código".



Comecemos pela análise de algumas obras de Leonardo Da Vinci citadas no romance. Em primeiro lugar o Homo Vitruvianus. O Curador do Museu do Louvre, para morrer se teria colocado propositalmente na posição do famoso desenho inspirado no Tratado de Arquitetura de Vitrúvio. Do ponto de vista médico, tal coisa é praticamente impossível. No momento da morte, acontecem estertores e movimentos involuntários. Ninguém conserva a plena consciência até o momento em que se produz a rigidez cadavérica; por isso, nos últimos momentos, não é dono dos seus atos. Por muito que se esforce, a posição do cadáver não vai ser aquela que o moribundo possa ter pensado. Por outro lado, o desenho de Leonardo, em lugar de transmitir uma figura estática (o pentagrama) mostra claramente, por meio dos braços e das pernas duplicados, que se abrem e se fecham, a idéia de movimento, dentro das proporções harmônicas do corpo humano. O primeiro "código", na realidade, não é tal, mas pura invenção do autor.



Mas onde a imaginação de Dan Brown envereda por caminhos absurdos é na análise do quadro da Última Ceia. Ele parece ignorar que o pintor se inspirou na descrição do Evangelho de São João e, mais especificamente, no momento em que Jesus anuncia a traição e os Apóstolos perguntam quem será o traidor. É bom observar os detalhes não de qualquer reprodução piedosamente retocada, mas do próprio afresco do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie em Milão. As figuras não estão distribuídas de modo estranho, conforme afirma Brown. Ao contrário, seguem uma disposição bastante comum na pintura renascentista: a fim de evitar a sensação de desordem, encontram-se distribuídos em grupos de três, enquanto o Senhor fica como que isolado, no meio deles. Ainda mais, Pedro não faz nenhum gesto ameaçador contra João (que Brown pretende seja Maria Madalena), mas, com a mão sobre o ombro do filho do Zebedeu, cochicha ao ouvido dele, conforme o Evangelista narra, para pedir que pergunte ao Cristo quem é o traidor. Por isso, entre João e Jesus, aparece um vão, que nada tem a ver com um suposto V, símbolo do feminino. Os corpos deles não se "tocam", como diz Brown; apenas os cotovelos estão próximos. A figura do Apóstolo João, à direita de Jesus, nada tem de esquisita. Responde à iconografia corrente em quase todos os pintores (e não vamos supor que todos foram esotéricos!): é a figura de um jovem imberbe, quase um adolescente. De fato, a tradição sempre viu nele "o discípulo virgem"; ainda mais, João teria vivido até bem perto do ano 100 da nossa era, o que faz supor que era bem novo no momento da morte de Jesus.



Brown se maravilha de que Jesus, ao igual que todos os apóstolos, não tenha diante de si, um cálice com a forma clássica que conhecemos, mas sim uma taça com vinho: treze taças! Estaria, pois, faltando o "Santo Graal!". A verdade é que João, no seu Evangelho, embora a suponha, não narra a instituição da Eucaristia. Por isso, Leonardo não precisava pintá-la. Além disso, pretendendo ser fiel à tradição judaica, colocou diante de cada um dos comensais, tal como ainda hoje se faz na Páscoa judaica, o mesmo tipo de recipiente para o vinho: uma espécie de tigelinha para cada um. Do mesmo modo, também todos têm pão na sua frente. Isso, contudo, não precisaria impedir que Jesus partilhasse o seu vinho e o seu pão, na instituição do sacrifício eucarístico. Se há inexatidão histórica, não é em Leonardo e sim nos outros pintores. Finalmente, é bom observar a forma de tigela do recipiente, porque pode indicar também, como veremos, a tradição mais primitiva acerca do vaso empregado na Última Ceia.



Um outro quadro no qual se detém Dan Brown é o da Madonna dos Rochedos, expressão da originalidade de Leonardo. Afirmar, como o nosso autor faz, que Maria tem "no seu colo" a Jesus, que estaria sendo abençoado por São João Batista, equivale a confessar que não olhou realmente a pintura. Nela, Maria está apenas amparando com o braço direito uma figura de criança que segura um cajado e que claramente é o Batista. De fato, na sua cintura, há nitidamente um cinturão de pele de camelo, o que corresponde à descrição dos evangelistas; a mesma coisa se diga do cajado, embora Leonardo, num evidente anacronismo, lhe tenha dado uma forma de cruz. Para não haver dúvida, a figura de Jesus, que se encontra sentado no chão e abençoa o Batista, é claramente de tamanho menor do que a de João, pois entre os dois havia uma diferença de idade de seis meses.



Ainda o nosso autor se detém a "examinar" (não seria melhor dizer a "fantasiar" sobre?) o famoso quadro da Monna Lisa. Leonardo pintou-o entre 1503 e 1506, empregando a conhecida técnica do sfumato. Parece que nunca o deu por concluído. Talvez por isso, não lhe deu título algum. O nome Monna Lisa foi-lhe atribuído por Giorgio Vasari em 1550, portanto, trinta e um anos após a morte de Leonardo. Mais tardio ainda é o nome de La Gioconda, assim chamada por Cassiano del Piombo em 1625, por pensar que fosse o retrato de Lisa (ou Elisa) Gherardini, mulher do rico comerciante florentino Francesco dal Giocondo . É fácil, portanto, ver que as especulações de Dan Brown sobre o nome Monna Lisa, como revelador de um segredo de Leonardo, carecem de qualquer fundamento objetivo. O pintor não poderia ter especulado sobre um nome que nem deu ao quadro e nem sequer chegou a conhecer. Além disso, a pretensa etimologia alegada por Brown (Amon l´Isa), que seria um acróstico dos deuses egípcios Amon e Isis, não se sustenta cientificamente. A duplicação do n em Monna, impede qualquer semelhança, além de que o artigo l surge do nada. Onde está, pois, a alegada "correspondência rigorosa" da descrição de Dan Brown com as obras descritas?



III. As pretensas "provas" científicas



Ao longo do romance, Dan Brown pretende dar "provas" científicas do que afirma. Até se arrisca a apresentar alguns fatos matemáticos, como a seqüência de Fibonacci e o número phi. Só que as suas afirmações rotundas revelam muitas vezes a ousadia da ignorância. Como se pode afirmar que a proporção entre a estatura de uma pessoa, de um lado, e a distância entre seu umbigo e a ponta dos pés, do outro, é rigorosamente igual para todos os indivíduos? Será que Brown não sabe que há indivíduos com pernas proporcionalmente mais compridas do que as de outras? Pensa que, por exemplo, os anões, cujo tórax é normal, mas que têm pernas muito curtas, respondem à mesma proporção do que as pessoas comuns? A mesma coisa se diga da afirmação de que a proporção entre obreiras e zangões, numa colméia, é sempre exatamente o número phi. Poderá tender para ele, mas num grupo tão numeroso, onde há mortes constantes por causas fortuitas, para manter tal proporção, seria necessária uma recontagem diária e uma eliminação de indivíduos do grupo que estivessem fora do parâmetro. Tal coisa nunca foi comprovada.



Mas onde se revela mais claramente o espírito pseudocientífico de Brown é nas alegações acerca de documentos secretos, ignorados ou escondidos pela Igreja católica, que demonstrariam as suas teses. Trata-se, fundamentalmente de três fontes: os escritos gnósticos dos chamados papiros de Nag Hammadi: os manuscritos do Mar Morto, achados nas cavernas de Qumran e o hipotético escrito Q, que muitos estudiosos do Novo Testamento alegam ter existido com prioridade aos Evangelhos canônicos.



Os papiros de Nag Hammadi são os restos de uma biblioteca gnóstica, achados no Egito em 1945. Dos algo mais de cinqüenta textos, menos de uma dúzia (e não mais de oitenta, como afirma Dan Brown) têm o título de Evangelho, sendo o mais importante o chamado Evangelho de Tomé. Não pertencem ao Vaticano e todos eles estão editados e traduzidos para os diversos idiomas, inclusive o português. Não se vê como seria possível uma conspiração "do Vaticano" para ocultá-los. Na linguagem simbólica, própria do gnosticismo, apresentam uma concepção fortemente dualista, onde a matéria é algo oposto à Divindade; prisão da alma, que é a verdadeira centelha divina. A mulher é tão desprezada pelos seguidores daquela seita que chegam a afirmar que Jesus estava pensando em transformar a Madalena em homem, para que fosse capaz de atingir a plenitude do conhecimento. O sexo e o matrimônio são neles condenados, pois a interrupção da procriação seria o único meio de libertar o ser humano de sua atual condição degradante. Como facilmente se pode perceber, essas idéias são diametralmente opostas ao acentuado sexismo e à adoração do eterno feminino e da mãe natureza que Brown pretende ver como o cerne da verdadeira pregação cristã. O "beijo na boca", sobre o qual Brown especula, como "demonstração" da relação entre Jesus e a Madalena, é, nesses escritos, uma clara alegoria da transmissão do conhecimento secreto, sem conotações sexuais. Além disso, não se pode esquecer que os Evangelhos gnósticos são, pelo menos, duzentos anos posteriores aos canônicos. Por que, então, privilegiar, como fonte de informação o posterior sobre o anterior? Não houve ocultação da verdade por parte da Igreja católica.



A segunda fonte documental que Brown cita, mas também sem aduzir nenhum texto concreto, são os chamados Manuscritos do Mar Morto. Trata-se de pergaminhos (a maior parte) e de alguns poucos papiros, encontrados em onze cavernas de Qumran, nas encostas do Mar Morto. A grande maioria encontra-se atualmente em Jerusalém, no "Santuário do Livro". O Vaticano não é proprietário deles; por isso, também não poderia ocultá-los. Embora com muita lentidão – em parte por causa de rivalidades entre os pesquisadores –, o seu conteúdo foi totalmente editado, não se podendo falar mais de textos ocultos. Exceto, talvez, alguns pequenos fragmentos da caverna quatro, todos os manuscritos são anteriores a Cristo, pelo que não podem conter nenhuma notícia acerca dele. Também não há neles o mínimo rasto da pretensa religião naturalista que Brown pretende ver por toda a parte. Ao contrário, os manuscritos do Mar Morto apresentam um tipo de espiritualidade rigorista, com forte acento apocalíptico, e com pretensões de conservar o javismo autêntico, frente à corrupção do mundo do Templo de Jerusalém.



A terceira fonte documental nomeada pelo nosso autor é um escrito hipotético. Perante as coincidências manifestas dos três evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), muitos estudiosos avançaram a hipótese de que, antes dos Evangelhos canônicos, teria havido uma coleção de ditos de Jesus, à qual deram o nome de Q (do alemão Quelle, ou "fonte"). Tal hipótese parece plausível, mas até agora não foi comprovada documentalmente. Por isso, todas as afirmações sobre os conteúdos literais de Q e sobre a autoria atribuída ao próprio Cristo, não passam de pura especulação. É disso do que gosta Dan Brown, muito mais do que do rigor científico. Uma vez mais, vemos que as suas descrições está há anos luz da alegada correspondência rigorosa com a realidade.



A mesma improvisação imaginativa a vemos quando o nosso autor pretende apresentar a figura de Maria Madalena. Observemos inicialmente que, nos Evangelhos canônicos, há três figuras femininas que, no imaginário popular acabaram por fundir-se. Uma é Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro; outra é Maria de Magdala (ou Madalena); e outra, enfim, é a pecadora anônima que ungiu os pés de Jesus. A primeira é citada pelo nome apenas por Lucas e João. Os outros dois evangelistas citam o frasco de alabastro e o fato da unção em Betânia, mas sem mencionar o nome da pessoa que a realizou. A Betânia a que eles fazem alusão é uma pequena aldeia bem próxima de Jerusalém e distante da Galiléia. A Madalena, por sua vez, é mencionada pelos quatro evangelistas, como alguém que se encontrava ao pé da cruz no momento da morte de Jesus e que, na manhã da ressurreição, foi ao sepulcro, para ungir o corpo do Mestre. À parte o fato de pertencer ao grupo de mulheres que seguiram Jesus desde a Galiléia (a pequena cidade de Magdala encontra-se nessa região), o único traço particular a seu respeito é fornecido tanto por Marcos, que nos diz que dela "Jesus expulsara sete demônios" (Mc 16,9), quanto por Lucas, que afirma que dela "saíram sete demônios" (Lc 8,2). Já a pecadora anônima é citada apenas por Lucas, com o apelativo de "uma mulher", sem nenhum traço de identificação com qualquer outro personagem do seu Evangelho. Há, porém, uma circunstância comum às três mulheres, que pode ter levado, numa análise superficial, a identificá-las: as três ungem Jesus: a pecadora, nos pés; Maria de Betânia, na cabeça; a Madalena, no corpo inteiro, no momento do sepultamento, coisa que teria feito mais uma vez, se tivesse podido, na manhã da ressurreição.



Nem nos Evangelhos canônicos, nem em qualquer autor cristão dos primeiros séculos há qualquer alusão ao suposto relacionamento marital entre Jesus e a Madalena. Mas também não existe tal nos evangelhos apócrifos, como o de Filipe ou o de Tomé. Por isso, Brown é incapaz de incluir qualquer citação literal desses escritos que levem a tal conclusão. Muito menos há, durante toda a antiguidade, um único traço documental de uma suposta descendência de Jesus. A cena narrada no quarto Evangelho, sobre o ato de Jesus de confiar a Virgem Maria a João ("e a partir daquela hora, o discípulo a acolheu na sua casa") não teria sentido, se ele deixasse uma viúva, com a qual logicamente a mãe deveria ficar. Tenha-se presente que o evangelista fala explicitamente da presença da Madalena ao pé da cruz. Nem Jesus parece preocupar-se com o futuro dela, nem ela recebe o encargo de cuidar da Virgem Maria ou dos supostos filhos do casal.



Maria Madalena, contra o que afirma Brown, sempre foi venerada na liturgia, tanto católica, quanto ortodoxa. Ainda mais, até a reforma litúrgica posterior ao Concílio Vaticano II, a sua missa – fora das de Nossa Senhora – era a única de uma santa mulher na qual se rezava o Credo, por ter sido a primeira testemunha da ressurreição e, por isso "Apóstola dos Apóstolos". Aliás nessa última reforma litúrgica, mais de trinta anos anterior a Brown, as palavras "qui Mariam absolvisti" do hino medieval Dies irae, dies illa, foram substituídas por "peccatricem absolvisti", evitando a confusão de qualquer Maria com a pecadora absolvida por Jesus.



No seu afã de apresentar uma linhagem real, a partir da Madalena, Brown ignora por completo a tradição medieval francesa – conservada viva pelos ciganos – da chegada de Maria de Magdala e outros discípulos a Saintes-Maries-de-la-mer, perto de Arles, na Provença, onde teria sido pregadora, e de sua retirada posterior, como penitente e contemplativa, na chamada Sainte Baume, uma gruta, que ainda hoje é lugar de peregrinação. É supérfluo mencionar que tal tradição – a mais antiga a este respeito – desconhece por inteiro qualquer descendência da Madalena.



Ainda um outro absurdo em relação à Madalena. O nosso autor afirma que ela teria sido enterrada no templo de Jerusalém e que os restos mortais teriam sido descobertos pelos templários, que secretamente teriam realizado escavações naquele lugar. É sabido que a entrada no templo de Jerusalém estava proibida às mulheres; elas somente podiam ficar no chamado "átrio das mulheres", nunca no templo propriamente dito. Em segundo lugar, nunca houve enterramentos no recinto do templo. Os cadáveres são indicados na Bíblia como uma fonte de contaminação; por isso, o contato com eles estava proibido aos sacerdotes. Daí que os cemitérios de Jerusalém ficassem situados nas encostas do vale do Cedrão. Além disso, tenha-se presente que Maria Madalena se professou claramente cristã. Ora, no ano 40, as autoridades do templo decretaram a excomunhão dos cristãos, excluindo-os da comunidade dos fiéis israelitas. Então, pergunto: como seria possível enterrar um cadáver de uma mulher "herege", nas dependências do templo de Jerusalém? E como esses restos mortais se teriam conservado intactos, junto com um amontoado de documentos através das vicissitudes por que passaram aqueles lugares, como a destruição do ano 70 e a invasão muçulmana de 635, com a construção posterior das mesquitas ainda hoje existentes?



IV. Os lugares



Se, como acabamos de ver, o autor de O Código Da Vinci é fraco na citação de documentos históricos, ainda comete outros graves erros na descrição dos lugares onde situa o seu romance. A ação se desenvolve basicamente num cenário restrito: o museu do Louvre, as sedes do Opus Dei em Nova Iorque e em Londres, o palácio de Castel Gandolfo, a igreja de Saint Sulpice, a abadia de Westminster e a Temple Church em Londres, mais a capela Rosslyn, na Escócia. Mas Brown aproveita para falar de numerosas outras construções, incluindo o templo de Jerusalém a as grandes catedrais góticas.



Dentre os lugares citados, merece destaque a sede do Opus Dei em Nova Iorque, porque, nos "fatos" alegados no início de livro, o segundo diz: "A Prelazia do Vaticano conhecida como Opus Dei é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como «mortificação corporal». A Opus Dei acabou a construção de uma sede nacional em Nova York, ao custo de 47 milhões de dólares". Poucas vezes, é possível cometer mais inexatidões em tão curto espaço.



Em primeiro lugar, o Opus Dei não é uma "prelazia do Vaticano", mas uma prelazia da Igreja Católica, ou seja, um conjunto de padres e diáconos, sob a direção de um prelado, que desenvolve um tipo próprio de espiritualidade católica e que se dedica ao apostolado entre os leigos que vivem no mundo.



Em segundo lugar, acusações tão graves como as de "lavagem cerebral" e "coerção", deveriam ser documentadas. Brown não identifica, com qualquer traço, os seus informantes, muito menos as vítimas de tal "lavagem", como também não informa sobre qualquer processo ou condenação de integrantes do Opus Dei por causa de tais crimes. A mortificação corporal não é uma "prática perigosa", mas uma tradição da Igreja católica, baseada no exemplo do próprio Jesus, que conforme os relatos evangélicos, jejuou quarenta dias e quarenta noites. Ainda hoje, todos os católicos, a partir dos dezoito anos de idade, até completar cinqüenta e nove, estão obrigados a jejuar na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa, assim como a fazer, todas as sextas-feiras do ano alguma obra de penitência. Todos nós lembramos, aliás, dos "sacrifícios" que éramos incentivados a praticar nos colégios e associações católicos. O que não é admissível é o tipo de mortificação que Brown descreve de modo sádico; aliás, ela seria impossível, porque teria conseqüências bem graves para a saúde de quem a praticasse. Silas, o executor do curador do Museu do Louvre, parece um super-homem, pois, após horrorosas flagelações continua com capacidade para correr, pular muros e desenvolver uma força incrível. O único ponto das críticas de Brown ao Opus Dei que tem algum fundamento é o do dinheiro de que disporia, mas sobre isso voltaremos mais adiante.



Um outro cenário focalizado pelo nosso autor é a igreja de Saint Sulpice, em Paris. O templo atual foi construído entre 1642 e 1745, bem longe da época dos templários, aos quais Brown parece querer conectar com essa construção. A chamada "linha rosa", contra o que afirma o nosso autor, não passa por esse templo. O meridiano marcado no seu interior não é mais do que um imenso relógio solar, tendo o obelisco a função de indicar o meio-dia. Não há, portanto, nenhum mistério escondido nele. Templos cristãos com indicações astronômicas são relativamente freqüentes. Sirvam de exemplo a igreja de São Petrônio em Bolonha (Itália), também com um meridiano, ou a catedral de Toledo (Espanha), onde um vitral permite que, no equinócio da primavera, o sol ilumine diretamente o sacrário da capela do Santíssimo.



Mas, em matéria de arquitetura, quando o nosso autor se mostra mais ousadamente ignorante é quando fala dos templos góticos. É completamente falso que as grandes catedrais góticas da Europa tenham sido construídas pelos templários. Foram as dioceses, com os seus bispos à frente que começaram essas construções grandiosas, já antes da fundação da Ordem templária, e as concluíram bem depois da sua dissolução. Ver na nave de uma catedral gótica a estrutura do útero feminino ultrapassa qualquer mente freudiana. Simplesmente, não há a mínima semelhança. A arquitetura gótica expande o espaço ao máximo, aproveitando os recursos arquitetônicos disponíveis naquela época: arco em ogiva, abóbada apoiada em nervaturas e arcobotantes. Nenhum crítico da história da arte alegou nada semelhante ao que Brown afirma. Ele parece ser o único iluminado.



A Temple Church de Londres é, de fato, uma das poucas igrejas autenticamente templárias que restam. Construída em 1185, foi destruída por completo, durante os bombardeios alemães a Londres, mas reconstruída após a Segunda Guerra Mundial. É atualmente um templo anglicano, com culto regular, onde seria impossível esconder os segredos que Brown insinua terem estado lá enterrados. A mesma coisa se diga da Capela Rosslyn, na Escócia, uma verdadeira jóia arquitetônica e um templo com intenso culto, pois é usado muito freqüentemente para casamentos. Não fica fechada durante a semana, nem está confiada a uma velha senhora, mas tem clero anglicano e sacristães para cuidar dela.



Continuando com as questões arquitetônicas, vejamos agora o museu do Louvre e a sua discutível pirâmide de vidro. A construção desta foi encomendada, mediante concurso público mundial, ao arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei. Terminada em abril de 1989, compõe-se não de 666 vitrais, como quer Brown, mas de 673, conforme informa o próprio museu. Pensar que, numa obra construída em nosso tempo, sob o olhar curioso dos parisienses, tenha sido possível esconder, sem que ninguém o visse, o esquife contendo os restos de Maria Madalena e vários caixotes de documentos é algo tão irreal que nem merece uma refutação.



V. Os personagens



Se passarmos agora a considerar alguns dos personagens que se encontram no centro da trama de O Código Da Vinci¸ encontraremos as mesmas ou maiores inexatidões históricas.



Um primeiro exemplo é o modo como é apresentado o Imperador Constantino I, "o Grande". Reinou durante vinte anos, de 317 a 337. Concedeu a liberdade ao cristianismo, tornando-o religião lícita, mediante o Edito de Milão, mas nunca o declarou religião do Estado. Tal coisa somente aconteceu com Teodósio I o Grande (383-388). Durante a era constantiniana, o paganismo romano continuou a existir e o próprio Imperador continuou a exercer o cargo de Pontifex Maximus ou sumo sacerdote da religião pagã. Conservou inclusive as vestais, virgens dedicadas temporariamente a Vênus, sustentadas à custa do Estado. Parece que Constantino somente se converteu ao cristianismo e foi batizado no fim de sua vida, diferentemente de sua mãe, Santa Helena, fervorosa cristã, que percorreu a terra Santa à procura das relíquias de Jesus e da primitiva Igreja. É verdade que convocou o Concílio de Nicéia, primeiro dos ecumênicos, a fim de conseguir a unidade entre as diversas facções cristãs. A este propósito, Brown tem a desfaçatez de afirmar que, antes de Constantino, ninguém teria afirmado a divindade de Cristo. Basta ler, como exemplo entre outros muitos, três textos neo-testamentários: 1) o início do Evangelho de São João: "No princípio existia o Verbo e o Verbo estava junto a Deus e o Verbo era Deus... e o Verbo se fez carne e habitou entre nós"; 2) a conhecida passagem da Carta aos Filipenses: "Tende em vós aquele sentimento que houve em Cristo Jesus, o qual subsistindo em forma de Deus não julgou o seu ser igual a Deus como um botim cobiçável, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens"; o trecho da Carta de São Paulo a Tito, que se lê no dia do Natal: "Aguardado a bendita esperança de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo". Além disso, qualquer um que tenha olhado os escritos dos Padres Apostólicos, do século II, como a Didakhé, Sto. Inácio de Antioquia, São Policarpo de Esmirna ou São Justino, terá percebido que todos eles defenderam ardentemente a divindade de Cristo. Ou Dan Brown tem uma ignorância completa da literatura cristã primitiva ou escreveu o seu livro com uma má fé incrível.



Podemos apresentar uma contraprova das nossas afirmações sobre Constantino, olhando um outro Imperador, Juliano I, apelidado de O Apóstata. Reinou de 361 a 363 e tentou uma espécie de revanche do paganismo. Apesar do seu ódio contra os cristãos, nunca lançou qualquer acusação de eles terem deturpado a doutrina de Jesus. Ao contrário, sempre mostrou seu desprezo pelo Cristo, ao qual se referia sempre como "O Galileu".



Um outro personagem histórico ao qual se refere, direta ou indiretamente Dan Brown é o fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá de Balaguer. Caracterizar os membros da prelazia como "monges", tal como o nosso autor faz, demonstra uma ignorância completa dos diversos tipos de vida consagrada na Igreja Católica, assim como da espiritualidade da "Obra de Deus". Camino, a obra do Fundador, traduzida em numerosas línguas e reeditada inúmeras vezes apresenta um tipo de espiritualidade militante para o laicato, própria da Espanha dos anos trinta e quarenta. Não convida, como os fundadores da vida monástica, à "fuga do mundo", mas, ao contrário, a uma inserção plena na dinâmica do temporal. Um outro autor do Opus Dei, Jesús Urteaga Loidi, escreveu outro bestseller da espiritualidade da Obra: O valor divino do humano. Se de alguma coisa foi acusado – a meu ver infundadamente – não foi exatamente de fuga do mundo, mas, ao contrário, de horizontalismo e semipelagianismo. O "monge albino", Silas, o assassino do romance, vai por toda a parte vestido de batina, coisa que nem sequer os clérigos da Prelazia fazem. A conversão dele, que teria ocorrido numa paróquia rural das Astúrias, na Espanha, por obra de Aringarrosa, o futuro Prelado do Opus Dei, é fantástica: o Opus Dei não regenta paróquias rurais na Espanha.



O único ponto que poderia discutir-se sobre a Prelazia é o seu poderio econômico. Mas é o mesmo problema de todos os institutos de vida consagrada, nos quais sempre houve e sempre haverá o problema da vivência da pobreza ao lado na necessidade de meios materiais para o exercício do apostolado. No caso do Opus Dei, há uma questão ulterior. Vivendo no mundo e exercendo os seus membros, na sua grande maioria, profissões liberais, não é estranho que consigam movimentar um volume considerável de dinheiro. A questão está em distinguir entre o que é da Obra e o que é de cada um dos seus membros.



Falando de personagens históricos, onde a imaginação de Dan Brown descamba incontida – embora não de maneira original – é em relação aos merovíngios. Uma fração da tribo dos francos sálicos, recebe o seu nome de Merovech, avô do rei Clóvis. Este, que reinou de 481 a 511 era pagão e se converteu ao catolicismo por influxo de sua esposa, a princesa burgúndia Clotilde, e do Bispo São Remígio, que o batizou. Teria sentido tal conversão se Clóvis fosse descendente de Cristo, como Brown pretende? Aliás, em toda a Idade Média, não há uma única referência a tal descendência. Quando, bem mais tarde, foi instaurada a dinastia dos Capetos, pretendendo glorificar as origens da monarquia francesa, foi inventada uma outra lenda bem diferente: os merovíngios seriam descendentes de Enéas e dos troianos. A ignorância histórica de Brown chega a afirmar que Paris teria sido fundada por Merovéu. Só que ela existia desde muito antes e já é citada por Júlio César no De Bello Gallico, como "Lutetia Parisiorum". Na sua obsessão anti-romana, Brown chega a afirmar, sem aduzir nenhuma fonte, que o Rei Dagoberto II, teria sido assassinado, em 679, "pelo Vaticano (sic!), em conluio com Pepin d’Héristal" [ou l’Héristal], pai natural de Carlos Martel. Logicamente, o nosso autor é incapaz de citar um único documento que sirva de base a tal hipótese peregrina. Lembre-se, aliás, que a residência oficial dos Papas, até 1305, era o Palácio de São João de Latrão e não o Vaticano, para onde os Pontífices se mudaram unicamente após a volta de Avignon, quase setecentos anos após a morte de Dagoberto!



VI Os Símbolos



Num livro cujo protagonista – Robert Langdon – é professor de semiótica na Universidade de Harvard, esperar-se-ia um maior rigor na descrição e interpretação dos símbolos. Mais uma vez, sentimos uma profunda decepção. Ao falar do Santo Graal, apoiando-se em grafias extremamente duvidosas, Brown tira conclusões falsas. Graal, conforme todos os estudiosos, provém do latim cratalis ou gradalis, quer dizer, um vaso em forma de cratera. Podemos comprovar que pelo menos uma parte da tradição conservou a lembrança dessa forma. Veja-se, por exemplo, o "Santo Grial" da Catedral de Valência, na Espanha, onde se observa claramente que a haste não estava unida originariamente à taça e que esta é especificamente uma cratera. O Santo Graal seria, portanto, a forma moderna de Sanctus Cratalis. Carece de sentido a etimologia proposta pelo nosso autor: sang-real ou sangue real. Na falsa etimologia de Brown (sang-real), as palavras ficam truncadas, pois o C ou G de cratalis é separado desse vocábulo e juntado arbitrariamente ao anterior; igualmente, os dois a de Graal, por arte de mágica viram ea, mudando completamente o significado da palavra originária. Além disso, leve-se em conta que toda a saga do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, que inspirou tantas obras literárias teria um significado bem diferente daquele que lhe foi atribuído ao longo de todos os séculos. Seria possível tamanho erro?



No seu afã de encontrar simbolismos sexuais por toda a parte, Brown apela para a interpretação fálica da espada (ou "lâmina") e feminina do "cálice". Gostaria de saber se alguém, até agora, encontrou no Novo Testamento qualquer texto que dê lugar a tais interpretações. Logicamente, o nosso autor apela para a "Estrela de Davi" (dois triângulos eqüiláteros entrelaçados) como a demonstração de que na tradição judaica estavam presentes, desde o início, tendências religiosas tipicamente sexuais. Acontece que esse símbolo, conhecido também como magen ou "escudo de Davi", não foi associado com o judaísmo antes de bem avançada a Idade Média. Nas moedas do antigo Israel e nas decorações das sinagogas mais primitivas, o único símbolo constante é a menorah ou candelabro de sete braços, que se encontrava no Templo de Jerusalém e foi levado, como botim, pelas tropas de Tito. Estrelas de seis pontas são bastante comuns entre outras populações do Oriente Médio e do Norte da África. Ainda hoje, por exemplo, a bandeira do Marrocos tem, no meio, uma delas.



Já fizemos alusão anteriormente, ao pentagrama. Também a respeito dele Dan Brown comete toda uma série de inexatidões. É falso que, como ele afirma, a órbita do planeta Vênus seja exatamente um pentágono. No máximo, poderia lembrá-lo, de longe. É igualmente inexato dizer que as Olimpíadas da antiga Grécia estavam dedicadas a Vênus e que, por isso, se celebravam cada cinco anos. A verdade é que estavam dedicadas a Zeus Olímpico e que aconteciam cada quatro anos. Essa é também, logicamente, a freqüência atual, não obstante os simbólicos cinco aros entrecruzados que conhecemos e que, contra o que erroneamente se propaga, não procedem da antiga Grécia. Quando o Barão de Coubertin, em 1896, conseguiu a restauração dos jogos, não adotou tal emblema. Somente em 1913, após a celebração de cinco olimpíadas, é que ele apresentou o conhecido logo, simbolizando os cinco países onde elas tinham acontecido. Parece que Coubertin pensava em acrescentar um anel a cada nova olimpíada, mas a irrupção da primeira Guerra Mundial impediu os jogos até 1920, quando o símbolo já estava, por assim dizer, cristalizado e lhe foi dada uma nova interpretação: os cinco continentes entrecruzados numa empresa de entendimento entre os povos.



VII. Os "Códigos Brown"



Dan Brown parece ter-se prevenido contra acuações de pretender enganar os seus leitores. Para os que acreditam ingenuamente nas suas afirmações, ele deixou escondidos certos "códigos", pistas que indicam algumas fontes e fatos, capazes de desvendar a verdadeira natureza do livro.



Em primeiro lugar, ele parece brincar de charada com os nomes de alguns dos seus personagens. O editor dos livros do protagonista professor Langdon é chamado de "Jonas Faukman, em clara alusão ao editor J. Kaufman, que publica os livros de Brown.



Tive a curiosidade de colocar no buscador Google o nome de Robert Langndon. Para minha surpresa, além dos links relacionados com O Código Da Vinci, apareceu um cirurgião plástico com esse nome.



O excêntrico milionário inglês, capaz de desvendar todos os mistérios do Santo Graal e vilão da história é chamado de Leagh Teabing. Ora, este nome se compõe exatamente com as letras dos sobrenomes de dois dos autores do livro, que já citamos anteriormente e onde Brown bebeu as suas idéias principais, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada: Michael Baigent, Richard Leigh. É quase uma confissão de culpa, de ter-se apropriado das idéias desses escritores. Daí a acusação de plágio que os dois autores levantaram contra Brown perante os tribunais.



O curador do museu do Louvre e pretenso Grão Mestre do fantasioso Priorado de Sião assassinado se chamaria Jacques Saunière. Curiosamente, esse sobrenome corresponde exatamente ao de um sacerdote francês da diocese de Rennes, Bernard ou Bérenger Saunière, falecido em 1917. Dedicou-se à venda de missas. Para defender-se das acusações de simonia, propalou histórias sobre pergaminhos alusivos a Maria Madalena e a que estariam tesouros escondidos na capela do castelo de Rennes e que ele teria descoberto, mas que nunca mostrou. A verdade é que morreu pobre, sem que ninguém tenha visto tais tesouros. Sobre ele, um obscuro autor e conhecido falsificador, Pierre Plantard, escreveu o romance L’Or de Rennes, um fracasso do ponto de vista editorial. Plantard, embora não citado, é claramente uma outra das fontes utilizadas por Dan Brown. Ainda mais, no decorrer do romance, acabamos por saber que o verdadeiro sobrenome de Sophie Neveu, criptógrafa da polícia francesa e neta do assassinado Jacques Saunière, seria Plantard(!)



Mas quem foi esse Pierre Plantard? Como já falamos, foi um escritor francês, nascido aos 18 de março de 1920 e falecido aos 3 de fevereiro de 2000. Inicialmente, anti-semita e anti-maçon, colaborou com o Governo de Vichy. Fundador, nos anos 40, de duas Sociedades inconsistentes – Rénovation Nationale Française e Alpha Galates. Conforme registro na subprefeitura de Saint Julien-en-Genevois, fundou em 1956, portanto, em pleno século XX e não no XI conforme a cronologia de Brown, fundou, junto com André Bonhomme, o "Priorado de Sião", de vida curta e efêmera, pois teve que ser refundado outras duas vezes, até desaparecer por completo, em poucos anos.



Foi condenado por corrupção de menores, em 1956. Escritor fracassado de romances, como o já citado L’Or de Rennes, buscou a fama através da falsificação de documentos, introduzidos em diversas bibliotecas, especialmente na Nacional de Paris (os famosos "dossiês secretos", citados por Brown), para apoiar suas fantasias. O jornalista francês Jean-Luc Chaumeil desmascarou as imposturas de Plantard nos anos 80 e publicou vários livros sobre o assunto. Colaborou com a BBC2 – que inicialmente dera como autênticos os "dossieres" – num programa de TV que foi ao ar em 1996 e que apresentou provas demolidoras contra a história toda. Na sua ânsia paranóica, propalou que, da fantástica linhagem da Madalena teriam sobrevivido só duas famílias, Plantard (a dele!) e Saint Clair, unidas como Plantard de Saint Clair. Chegou a divulgar inclusive um suposto brasão dessa família, com uma flor de lis, em campo vermelho e a inscrição et in Arcadia ego. Facilmente se vê que, curiosamente, não há aí nenhuma mensagem cristã; ao contrário, a Arcádia forma parte da mitologia grega e a palavra ego parece indicar um claro egoísmo anticristão.



A este respeito, é bom lembrar o primeiro dos "Fatos" alegados por Dan Brown, na página introdutória do seu romance: "O Priorado de Sião – sociedade secreta européia (?) fundada em 1099 – existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiers Secretos, que identificavam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci". Compare-se essa afirmação com os fatos estabelecidos a partir de fontes históricas e aqui relatados e logo se perceberá a má fé de Brown.



A mesma coisa se deduz do estudo da história de Jerusalém e das cruzadas. O nosso autor afirma que teriam sido os Templários os iniciadores do tal de "Priorado", a fim de proteger os restos mortais de Maria Madalena, junto com uma ingente quantidade de documentos primitivos relativos a ela e à sua descendência. Tais objetos sagrados teriam sido escondidos "no templo de Salomão" encontrados pelos cavaleiros, que lá se teriam estabelecido após a conquista de Jerusalém pelos cruzados. Confesso que, quando apareceram "os Templários" no meio da trama romanesca, tive a tentação de jogar O Código Da Vinci no lixo, porque os famosos cavaleiros, nas mãos de escritores inescrupulosos, se transformaram num mito recorrente na literatura esotérica e anti-católica. Mas vamos aos fatos.



Os cristãos foram considerados, inicialmente, pelas autoridades do Templo (construído não por Salomão, mas por Herodes o Grande), como hereges e perturbadores da ordem. Por isso, decretaram contra eles o herem, ou excomunhão. No ano 40, Herodes Antipas desencadeou perseguição aos cristãos, mandando matar o Apóstolo Tiago, o filho do Zebedeu. No meio de tão adversas circunstâncias, como seria possível enterrar Maria Madalena, membro destacado de um seita condenada, nesse Templo? Pior ainda, se levarmos em conta que as mulheres estavam proibidas de aceder aos seus recintos internos, reservados para homens israelitas. Elas não podiam passar do "átrio das mulheres". Continuemos. No ano 70, após uma sangrenta rebelião dos judeus, os romanos conquistaram Jerusalém e destruíram o Templo. Será que os restos mortais da Madalena e a pilha de documentos que a ela se refeririam se salvaram milagrosamente da destruição? Acrescente-se a essas dificuldades o fato de que, sobre as ruínas do Templo, os conquistadores romanos edificaram um outro, dedicado a Júpiter Capitolino, pois a cidade passou a se chamar Aelia Capitolina. Em 635, os árabes, convertidos ao islamismo, conquistaram Jerusalém. Demolido o templo pagão e as igrejas cristãs que o sucederam, os novos senhores construíram duas mesquitas, ainda existentes na atualidade: a de Omar ou da Cúpula Dourada, terminada em 691, e de Al Aqsa. Quando, em 1099, os cruzados entraram triunfalmente em Jerusalém, não derrubaram as mesquitas, mas as transformaram em igrejas. Os Templários, porém, foram estabelecidos apenas em 1118. Impossível, portanto, que tenham fundado o Priorado no mesmo ano da conquista, pois somente dezenove anos mais tarde é que passaram a existir. Ainda mais, o seu quartel nunca esteve no recinto do Templo, mas num terreno diferente, embora vizinho a ele. Como poderiam ter realizado escavações secretas em lugares que não estavam sob a sua custódia? Em 1187, Saladino reconquistou Jerusalém para os árabes. Em 1312, o Papa Clemente V, sob pressão do Rei Filipe o Belo, da França, decretou a extinção dos Templários. Contra o que Brown afirma, não houve nenhuma execução deles em Roma, pelo simples fato de que Clemente, que, no momento da eleição, era Arcebispo de Bordeus, ficou, durante todo o seu pontificado, em Avignon, no Sul da França.



VIII. O "código" definitivo?



O "código" definitivo para a interpretação da obra em questão nos é fornecido pelo próprio autor. Comparemos dois trechos do romance. No início do cap. 1º, encontramos o seguinte texto: "Robert Langdon acordou devagar..- Onde é que eu estou, afinal? O roupão de jacquard pendurado na coluna da cama tinha o monograma: HOTEL RITZ PARIS".
Parece um pormenor sem importância. Não é. No epílogo, após inúmeras peripécias, deparamo-nos com quase as mesmas palavras: "Robert Langdon despertou sobressaltado. Tivera um sonho. No roupão de banho ao lado de sua cama estava bordado omonograma HOTEL RITZ PARIS. Viu uma luz mortiça filtrando-se através das venezianas. - - Será o anoitecer ou amanhecer?, perguntou-se". O que será que o autor nos está querendo dizer com esses parágrafos quase idênticos? Algo muito simples: que tudo não passou de um sonho, o sonho de alguém que, como Dan Brown é movido pelo ódio à Igreja Católica e sonha com a sua destruição.