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21/05/2012

Elogios viciados


Sidney Silveira


Ensinam os grandes teólogos que o pecado possui três fontes principais: a ignorância, a paixão e a malícia. E, numa escala progressiva, o mal de culpa decorrente das ações humanas contrárias à lei natural, à reta razão e à lei divina possui uma gradação que culmina na malícia — a qual, de acordo com Santo Tomás, é pecado ex electioneex industria e ex certa scientia. Em palavras chãs, é mais culpável o malicioso que o ignorante e o apaixonado.


O ignorante peca porque, no ato, lhe falta a ciência que impediria a ação má (sicut removens prohibens), e nestas ocasiões se diz que peca circunstancialmente por ignorância, sendo esta mais ou menos culpável na medida em que o ignorante possua maior ou menor condição de conhecer o que ignora. O apaixonado, por sua vez, sucumbe a um ímpeto instantâneo e transitório, fruto de maus hábitos adquiridos que o predispõem ora à incontinência, ora à intemperança — as quais cegam a inteligência. Por fim, o malicioso age com ciência certa do malefício que procura impingir ao próximo. Aqui, a inteligência não está obnubilada, enevoada ou impedida, ao realizar-se o ato propriamente humano, razão pela qual a responsabilidade é incomensuravelmente superior à dos outros dois casos.


À luz destes princípios, podemos obter um retrato seguro da responsabilidade moral daqueles que defendem um acordo político-prático entre a FSSPX e as autoridades que hoje comandam a Hierarquia da Igreja. A propósito, antes de tudo diga-se que, em sua imensa maioria, estes pró-acordistas de primeira hora desde sempre foram críticos severíssimos da FSSPX (à qual acusavam ora de cismática, ora de sectária, ora de sedevacantista, etc.), e o seu apoio ao acordo político dela com Roma não é outra coisa senão a confirmação de sua proverbial atitude anti-FSSPX. Assim, se agora elogiam a “coragem” de D. Fellay é porque este mudou radicalmente de posição, como ficou patente em sua carta aos demais bispos da FSSPX, veiculada mundo afora. É como se elogiassem o Flamengo por ter tido a “coragem” de virar Corinthians. Na verdade, odeiam o Flamengo e louvam o fato de ele querer deixar de ser o que sempre foi. Ao defenderem o acordo, defendem a si mesmos.


Tal louvação pró-acordista passa ao largo da única questão que realmente importa: a doutrinária, que no caso católico, por sua absoluta superioridade, é subordinante em relação a qualquer posição política defensável — a menos que concedêssemos que as verdades no âmbito da razão prática não são as reitoras do bom governo, que, como ensinara Santo Tomás, visa ao bem comum e não ao bem de alguns. Foi a questão doutrinária, e não a “política”, o que fez D. Marcel Lefevbre criar a FSSPX com o intuito de preservar íntegra a fé — fé que corria o risco de perder-se devido à sistemática demolição levada adiante pelos modernistas nas instâncias litúrgica, pastoral, estética, dogmática, etc. Uma verdadeira revolução cujos frutos são de uma escandalosa evidência.


Os malefícios dessa revolução perpetrada pelas autoridades atingiram todo o Corpo Místico e afastaram da fé muitos católicos, sobretudo os das gerações mais novas, que passaram a aprender dos neocatequistas oficiais algo que não é a fé — mas uma espécie da anti-féDeus não castiga; Adão e Eva são um mito; a Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja Católica; os judeus são nossos primogênitos na fé; os muçulmanos adoram o mesmo Deus que os católicos; os dogmas evoluem; há salvação fora da Igreja; a salvação é universal, entre outras coisas porque Cristo verteu o seu sanguepor todos e não por muitos; o limbo é mera suposição sem base na Sagrada Escritura; a fé é um sentimento; todas as religiões são verdadeiras e, cada qual a seu modo, religam a Deus; Lutero foi um grande homem que combateu a corrupção da Igreja; o fiel católico deve confessar-se apenas uma vez ao ano; as Cruzadas são uma coisa de que a Igreja deve envergonhar-se; as sagradas espécies eucarísticas podem ser tocadas por qualquer um; a batina é pura e simples desnecessidade; não podemos rezar pela conversão dos judeus na Sexta-Feira Santa; e, como não poderia deixar de ser, Maomé é gente muito fina, pessoa respeitabilíssima, como dão a entender os documentos da Pontifícia Comissão para o Diálogo Inter-religioso.



Aqui se apresenta uma verdade deveras incômoda: com uma ou outra exceçãozinha acidental, todas estas coisas continuam a ser ensinadas intra muros da Igreja pós-conciliar, seja nos Seminários, nas comissões teológicas criadas para fomentar um interminável debate ou, ainda, de viva-voz pelas autoridades eclesiásticas. Mas os pró-acordistas — muitos dos quais interessados no crescimento de seus próprios grupos, estes sim, de caráter notadamente sectário — preferem imaginar que os Papas pós-conciliares são como maridos enganados: pessoas simplesmente traídas por seus subordinados; pessoas que estão de mãos “atadas” e nada ou quase nada podem fazer, como se em verdade de nada lhes servisse a Suprema Autoridade Apostólica participada a eles por Cristo. Conheço o vasto repertório de argumentos desse pessoal, que para se justificar chega a forjar comparações indevidas, totalmente impróprias, com momentos do passado na gloriosa história da Igreja.


O apoio público de gente com este perfil ao acordo da FSSPX com Roma está, portanto, viciado na raiz, pois não é outra coisa senão o fiel espelho de sua ojeriza àquilo que a FSSPX sempre foi e representou: uma resistência tradicional, doutrinária — sem concessões de nenhuma ordem — ao modernismo entronizado pelo Concílio Vaticano II. Modernismo este que, a propósito, “consagrou” o ecumenismo (e ainda hoje o apóia e difunde claramente); contaminou perigosamente a matéria dos sacramentos; gerou a Missa-mostrengo-carismática e todas as que dela derivaram; transformou o Catecismo num tratado fenomenológico intragável e quase incompreensível; atingiu em cheio as vocações; pôs em xeque dogmas multisseculares, comopor exemplo o do Limbo; passou a orientar o Magistério pelo consenso “plurânime” dos neoteológicos modernistas (como demonstrou o Pe. Álvaro Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire). Coloquemos aqui mil etcéteras para não enumerar ad infinitum os frutos dessa revolução que ainda está em curso, embora no atual momento contemple ela todas as vozes, inclusive as neconservadoras que, é claro, não ousem dizer um veemente e público “não” ao Vaticano II e ao Magistério que se lhe seguiu.


Ademais, erram os pró-acordistas por fazerem vista grossa ou ignorarem o seguinte princípio metafísico: o mais pode o menos, mas o menos não pode o mais. Tal princípio é universal no plano ontológico e, por conseguinte, impera na ordem prática, em que a política é ciência arquitetônica. Isto significa queuma política não pode transmudar-se de má em boa — como num passe de mágica — se não se apoiar em algo que, no plano noético, esteja acima dela: o conjunto de verdades fundamentais acerca da natureza humana (e de sua orientação teleológica a Deus), que, se defraudado, será fonte de males sem fim na ordem política. Neste contexto, qualquer acordo político-prático que jogue, de uma forma ou de outra, para debaixo do tapete as questões doutrinárias que são a razão de ser da FSSPX, e mais que isso, que orientaram a resistência católica à caudalosa tsunami modernista, pode perfeitamente receber o nome de negociata. Ou seja: um negócio bom para alguns, mas contrário ao interesse comum da Igreja, que é o bem das almas.


A posição do Mosteiro da Santa Cruz, de Friburgo (RJ) — que é a mesma dos três bispos da Fraternidade que chamaram D. Fellay à responsabilidade de não pôr em perigo a obra de defesa da Tradição construída por D. Lefevbre — parece-nos a mais sensata, prudente e doutrinariamente sã, na hora presentenão se pode apoiar um acordo que deixe para segundo plano as questões atinentes à doutrina católica de sempre. Fazer isto é ter da política uma concepção segundo a qual a verdade é apenas um detalhe, e não o vetor decisivo dapraxis humana.


O elogio a um acordo meramente prático-político entre Roma e a FSSPX, como se apontou acima, é viciado. É na verdade um auto-elogio, quando saído da boca de críticos históricos da Fraternidade. Mas se algumas dessas pessoas agem assim por ignorância, paixão ou malícia (ou ainda uma mescla dos três), é algo que não há como saber. E por isso não nos cabe julgar.


Malgrado saibamos que a conseqüência prática desse erro crucial do seu apostolado seja trabalhar pela disseminação em larga escala de uma obtusa obediência a erros que, em si, são verdadeiros crimes contra a fé. E estimular uma omissão grandemente culpável.


Indaguemos, por fim, o seguinte: quem realmente está carecendo da “visão sobrenatural" da fé, D. Fellay ou os três outros bispos consagrados por Marcel Lefevbre?




P.S. Nos últimos sete anos, embora tenha travado contato com gente de primeira linha, bondosa, profunda, leal e honesta, infelizmente conheci entre católicos alguns dos piores espécimes humanos com que deparei em toda a minha vida. Detratores, maledicentes, mentirosos, pessoas escudadas em grupelhos, covardes, incapazes de verdadeira amizade, opiniáticos que nunca estudaram seriamente teologia e acham que podem adentrar o terreno de uma discussão doutrinal, apenas porque leram algo do Magistério ou deram ouvidos ao guru do dia. Alguns são semi-analfabetos funcionais que posam de apologetas, e não deixo de pensar nessas horas que a Igreja — quando o seu Magistério velava pela unidade da doutrina — produzia às pencas apologetas de talento retórico, profundidade filosófica e conhecimento (teórico e prático) da fé. Agora, sujeitos que não escrevem lé com cré acreditam ser guardiões da fé.


Tal fenômeno, infelizmente, não se observa apenas entre leigos; tive contato com padres ditos amigos da tradição capazes de fofocas e calúnias monstruosas, cegos em sua ambição de assumir um papel de proa na atual crise da Igreja e de arregimentar seguidores custe o que custar — atacando seus colegas de batina de forma soez e tentando calar os leigos conhecedores da doutrina, numa flagrante impostura clericalista (não há como não lembrar, aqui, o seguinte: em sua acirrada polêmica contra o herege Siger de Brabante, Santo Tomás jamais usou contra ele o “argumento” de ser leigo). Em suma, não tenho, e não mais quero ter, nenhum tipo de contato pessoal com essa gente. Se porventura me encontrarem nalguma Missa ou evento, por favor passem direto. Não preciso da sua simpatia nem dos seus maus conselhos. E não me peçam para citar nomes, porque neste caso as pessoas não importam, mas o que fazem.


Já pedi sacramentalmente perdão a Deus porque, no passado, antes da minha conversão, houve algumas poucas ocasiões em que freqüentei prostitutas, além de ter tido uma vida moralmente irresponsável, no que tange a relacionamentos amorosos, coisa de que muitíssimo me arrependo, razão pela qual entendo perfeitamente o "tarde Te amei, Senhor", de Agostinho. Seja como for, conhecer prostitutas serviu-me para constatar o seguinte — vejo-o agora claramente: entre elas não vi, nem de longe, a malícia dessa gente pseudotradicional que, durante os dias da semana, detrata irresponsavelmente o seu próximo, peca contra a verdade e joga na lama a honra alheia, para no domingo comungar com a cara mais lavada deste mundo, numa falsa boa consciência de dar dó.


Não à toa disse Cristo que as meretrizes irão preceder a fariseus desta estirpe no reino dos céus.
http://contraimpugnantes.blogspot.com/2012/05/elogio-viciado.html

Fraternidade São Pio X (Série Sim Sim, Não Não)


Dom Lourenço Fleichman OSB
Está sendo difundido em alguns blogs um artigo meu antigo, sem que se avise ao leitor que ele não é atual. Lendo-o com a falta de atenção que costumam usar, querem insinuar que eu defendo o atual processo de união entre a Fraternidade S. Pio X e o Vaticano. Convido os leitores a ler esse texto prestando a atenção devida, e perceberão que minha defesa de Dom Fellay nesse antigo artigo está baseada na afirmação categórica de que o Superior Geral da Fraternidade não faria, naquela ocasião, nenhum acordo prático, pois assim sempre ensinou em suas conferências: sem a conversão das autoridades romanas, não se pode pensar em acordo prático.
É evidente que nessa hora de grande perturbação e angústia para todos os fiéis católicos da Tradição, em que vemos Dom Fellay declarar que deseja esse acordo prático, é preciso ter os critérios verdadeiros diante de si: a fé sobrenatural exige nossa adesão total à verdade, e não se vê da parte de Roma nenhuma mudança substancial nesse sentido. Não podemos apoiar tal acordo. Procuramos manter nossas almas em oração e penitência, pedindo à Virgem Maria que não permita que a Tradição perca sua força por essa aproximação com o Vaticano, que continua pregando os inaceitáveis erros do Concílio. (Todos grifos deste parágrafo são meus)
Leiam na mesma perspectiva:
A Descoberta da Outra - Gustavo Corção
Miragem ou visibilidade - Dom Lourenço
A Revelação do Homem - Gustavo Corção
http://permanencia.org.br/drupal/node/3299

20/05/2012

Fax de Dom Fellay á Campos (Série contradições)

As 30 moedas de prata, pelo visto, atacou novamente... pobre alma!!!

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FRATERNITE SACERDOTALE SAINT PIE X
SCHWANDEGG
CH 6313 MENZINGEN
+ Menzingen, 18.01.2002
Fax para Mgr. Rangel, Padre Rifan

Caro Monsenhor,
Caro Padre,

Circulam boatos no Brasil segundo os quais nós teríamos aprovado o acordo de reconhecimento entre Roma e a Associação São João Maria Vianney. E também que teríamos enviado um representante à cerimônia de hoje.

Sinto-me na obrigação de desmentir esses boatos.

Quanto aos acordos, constato o fato consumado e deploro a paz separada, pois a união faz a força. Nós éramos um no "combate" da fé; agora seremos dois. São grandes nossas apreensões quanto ao futuro, e aguardamos com certa impaciência que, por ocasião da próxima reunião de Assis, vossa voz episcopal nos tranqüilize e se faça ouvir, na mesma linha e no mesmo espírito de S. Exc. Mgr. de Castro Mayer, para proteger o rebanho e dissipar a confusão das almas causada por esta reunião.

Por outro lado, lamento a presença entre os senhores do Padre Aulagnier, apesar da minha proibição formal de ele ir a Campos nesta ocasião. Assim, este dia será marcado na nossa memória por esta triste desobediência.

Assegurando-vos das minhas orações, no coração de Jesus e no de Maria

+ Bernard Fellay

21/09/2009

Dom Williamson e as discussões difíceis (Parte III)


Duas objeções ao próprio princípio da Fraternidade São Pio X entrando, possivelmente em breve, nas discussões doutrinais com as autoridades da Igreja em Roma, ajudam a enquadrar a natureza, propósito e limitações de tais discussões. A primeira objeção diz que a Doutrina Católica não é para ser discutida. A segunda diz que nenhum Católico pode presumir discutir com representantes do Papa em pé de igualdade. Ambas as objeções aplicam-se em circunstâncias normais, mas as de hoje não são normais.

Quanto a primeira objeção, é claro que a imutável e imutada doutrina Católica não é discutível. O problema é que o Vaticano II empreendeu mudá-la. Por exemplo, pode, ou deve um Estado Católico tolerar a prática pública de falsas religiões? A Tradição Católica diz "pode", mas apenas para evitar um mal maior ou alcançar um bem maior. O Vaticano II diz "deve", em todas as circunstâncias. Mas se Jesus Cristo é reconhecivelmente o Deus encarnado, então nada além de "pode" é verdadeiro. Pelo contrário, se "deve" é verdadeiro, então Jesus Cristo não pode ser necessariamente reconhecível como Deus. O "pode" e o "deve" estão distantes como ser Jesus Cristo Deus por divina natureza ou por escolha humana; ou seja, entre Jesus ser, ou não ser, objetivamente, Deus!

Ainda que as autoridades Romanas afirmem que a Doutrina do Vaticano II não representa ruptura com o dogma Católico, mas sim seu desenvolvimento contínuo. A menos, então - tomara Deus que não!-- que a FSSPX abandone também o dogma Católico, ela não discutirá com essas autoridades se Jesus é Deus, não se trata de por em discussão a doutrina Católica, mas sim esperar persuadir quaisquer Romanos com ouvidos abertos que a doutrina do Vaticano II é gravemente contraposta à doutrina Católica. A esse respeito, mesmo que o sucesso da FSSPX se mostrasse mínimo, ainda se consideraria que fora seu dever dar testemunho da Verdade.

Mas os Romanos podem replicar: "Nós representamos o Papa. Como ousam presumir uma discussão conosco?" É a segunda objeção e para todos aqueles que pensam que a Roma Conciliar está na Verdade, a objeção parece válida. Mas é a Verdade que faz Roma e não Roma que faz a Verdade. Nosso Senhor mesmo repetidamente declara no Evangelho de S. João que sua doutrina não é sua mas de Seu Pai(Ex. Jo. 7, 16). Mas se a Doutrina Católica não compete a Jesus mudar, quão menos competirá a seu Vigário mudar, i.e., o Papa! Se então o Papa, por seu livre-arbítrio dado por Deus, escolhe se apartar da Doutrina Católica, no tocante a essa medida ele depôs seu status de Papa e nesse tocante apenas -- ele continua o Papa -- ele se coloca e/ou seus representantes abaixo de quem permanecer fiel à Doutrina do Divino Mestre.

Portanto o mesmo status na discussão com o Papa reside na medida em que ele se aparta da Verdade, qualquer Católico a assume, sendo fiel à Fé. Como de maneira célebre disse uma vez Monsenhor Lefebvre diante das Autoridades Romanas que o interrogavam por sua dissensão com o Papa Paulo VI, "Eu que devia estar interrogando vocês!" Defender a Verdade de Deus Pai é o orgulho e a humildade, a vocação e a glória da pequena FSSPX do Arcebispo. Se as discussões com Roma significarem o menor perigo que seja da FSSPX ser infiel à sua vocação, então não deveria haver discussões.

Kyrie Eleison.

Londres, Inglaterra

01/01/2009

A Lógica da Caridade e Prudência: A verdadeira face de Arcebispo Lefebvre






"Como que um sucessor de Pedro pode em tão pouco tempo ter feito mais estrago á Igreja do que a Revolução de 1789?... Temos realmente um Papa ou um intruso na Cátedra de Pedro? Benditos são aqueles que viveram e morreram sem terem tido que fazer tal indagação!"
Esta é a questão que Arcebispo Marcel Lefebvre expôs na Cor Unum, no Boletim interno da Sociedade, no dia 8 de Novembro de 1979. É pertecente (referente) á Paulo VI -assim como já havia sido no "ardente verão" de 1976- mas irá em breve também pertencer (referir) á João Paulo II: "Como é que pode, dada as promessas de assistência por Nosso Senhor á Seu Vigário, deixar que este mesmo possa ao mesmo tempo, através de si próprio ou de outros, corromper a fé dos que creêm?"

Alguns dizem que [Paulo VI] pronuncia heresias, ele promulgou a liberddade religiosa e assinou o sétimo artigo do Novus Ordo Missae. Agora, um herege não pode ser Papa, logo, ele não é Papa, e assim, obediência não lhe é devida. Essa é uma simples e confortável lógica baseada na opinião teológica que autores teológicos mantiveram no abstrato. Mas alguém pode, praticamente falando, sustentar a heresia formal de um Papa? Quem terá autoridade para isso? Quem dará os avisos necessários á um Papa que poderá ser reconhecido? Essa linha de raciocínio, na prática, coloca a Igreja numa situação inexplicável. Quem nos dirá aonde o futuro Papa estará? Como ele pode ser designado já que o Papa "não é Papa", e portanto, não há mais Cardeais? "Esse espírito é um espírito cismático". Ademais, "a visibilidade da Igreja é bastante necessária para que Deus omita-a num curso de várias décadas".
Para a "lógica teórica" do Pe. Guérard des Lauries, Arcebispo Lefebvre prefere "uma sabedoria superior: a lógica da caridade e da prudência."

Um dia, talvez daqui uns trinta ou quarenta anos, uma seção de Cardeais convocados pelo Papa estudará e julgará o reinado de Paulo VI, talvez eles dirão que algumas coisas devem ter feito 'saltar os olhos' dos seus contemporâneos, afirmações desse Papa que foram totalmente contrárias a Tradicão. Eu prefiro no momento considerar como Papa aquele que, pelo menos, se encontra sentado no trono de Pedro, e se algum dia for descoberto com certeza que este Papa não era Papa, ainda assim terei cumprido com minha obrigação. Exceto os casos que ele faz uso do carisma da infabilidade, o Papa pode errar. Por que então deveríamos nos escandalizar e dizer, "logo ele não é Papa", assim como Ário se escandalizou com as humilhações sofridas por Nosso Senhor que disse em sua Paixão "Meu Senhor, por que me abandonastes?" e raciocinaram, "logo ele não é Deus!"

Nós não sabemos até que ponto um Papa, "levado por sabe-se lá qual espírito, qual treinamento, sujeito a quais pressões ou por negligência", leva a Igreja a perder a fé, mas "nós reconhecemos os fatos. Eu prefiro partir deste princípio: nós temos que defender nossa fé, nisso, é nosso dever não admitir sequer uma sombra de dúvida."




Marcel Lefebvre:Une Vie, by Bishop Bernard Tissier de Mallerais [Etampes: Clovis, 2002], pp. 533-535

30/12/2008

Papolatria

Papolatria


Dr. William Marra

Nota edital: Este transcrito editado é de uma parte do discurso “alternativa para o cisma” dado no Fórum da Conferência Romana em Agosto de 1995. Nesta apresentação, o Dr. Marra apresenta um esclarecimento que ajuda os Católicos a pensarem criticamente e corretamente, quando as indicações confusas e contraditórias emanam mesmo das autoridades mais elevadas da Igreja.



Crença e Obediência

Meu grande professor, Dietrich von Hildebrande escreveu quatro proeminentes livros na atual crise da Igreja. Recentemente, seu último livro, o Charitable Anathema foi publicado. Eu desejaria que nós pudéssimos enviar uma cópia para Roma. Um capítulo neste livro contém uma palestra da mais importante, jamais dada por ele ao Fórum Romano. Refere-se à diferença entre a crença (opinião) e a obediência. Chamou-lhe de uma grande diferença. Foi magistral.

O ponto é: se há um problema em uma questão da verdade, e há uma grande disputa, e finalmente Roma declara (invocando sua autoridade infalível) e diz, “Esta declaração tem que ser acreditada de fide”. Então este é o fim da disputa. Roma locuta causa finita. Roma declarou, caso encerrado. Esse é o fim. Conseqüentemente, nós temos que acreditar na declaração de tal verdade.

Entretanto, decisões práticas do Clero, mesmo as das mais elevadas autoridades; do Papa, Bispos, Padres, são algo completamente diferente. Nós não dizemos, por exemplo, que um comando ou decisão de um Papa de convocar um Concílio seja verdadeira ou não. Nós podemos dizer que é sábio ou não… é oportuno ou não. Tal decisão, de maneira alguma pede que nós aprovamos a sua autenticidade. Pede que nós obedeçamos o comando ou os comandos que nos pertence. Este é o que von Hildebrande quis dizer através da diferença entre a crença e a obediência. E nós católicos nunca somos obrigados a acreditar que uma ordenação dada, ou a decisão dada por quem quer que seja, incluindo o Papa, são necessariamente aquela do Espírito Santo.


Os limites da proteção divina

Há um tipo papolatria circulando. Essa papolatria age como se tudo que viesse de Roma fosse inspiração do Espírito Santo. Esta linha de pensamento presume, por exemplo, que se o Vaticano II foi convocado, foi porque o Espírito Santo desejou convocá-lo. Mas este não é necessariamente o caso. A convocação do Concílio Vaticano II foi uma decisão pessoal de João XXIII. Ele pode ter pensado que Deus lhe estava dizendo para convocá-lo, mas quem realmente sabe se isso procede? Não existe nenhum carisma especial que garanta ele reconhecer uma decisão como vinda do Espírito Santo com certeza teológica.

Nós podemos dizer que o Papa tem o poder de chamar um Concílio.
Nós podemos dizer que as autoridades na Igreja podem invocar o Espírito Santo para garantir, em um conjunto raro de casos, que o que vem deste Concílio seja de fide. (E nada no Vaticano II foi pronunciado de fide, Ed.)

A glória da Igreja é que tem a ajuda sobrenatural para definir a verdade. Tem a ajuda sobrenatural para garantir que seus sacramentos sejam eficazes e assim por diante. Mas quem disse que a decisão para chamar um Concílio fosse protegida pelo Espírito Santo?


Alguns esclarecimentos

Deixe-nos olhar determinadas decisões práticas de qualquer Papa.

Um Papa poderia comandar a supressão de uma ordem religiosa. Isso aconteceu alguns séculos atrás, o Papa suprimiu os Jesuítas. Era foi um pouco prematuro, eu penso que eles deveriam ter esperado. Este tipo de supressão refere-se à obediência, não á crença.

Para todas as finalidades práticas, Pauol VI suprimiu o Rito Romano. Nós não temos nenhum Rito Romano. O Papa Paulo VI pensou que teria o poder litúrgico para fazer isto. Von Hildebrande classifica tal ato como a grande tolice do Pontificado de Paulo VI. Então, suprimir uma ordem religiosa, suprimir um rito, nomear um Bispo é uma matéria de obediência, não de crença, e portanto, não é garantida pelo Espírito Santo.

Nós temos 2.600 Bispos na Igreja. Isso significa o Espírito Santo escolheu todos eles? Isso é blasfêmia, amigos. Vocês querem responsabilizar o Espírito Santo pelo Arcebispo Weakland?

Como já mencionado, convocar um Concílio é uma decisão prática do Papa. Uma pessoa pode piodosamente acreditar que Deus a inspirou. Mas ninguém pode dizer que este é um objeto de fé.

Também não devemos acreditar que quem quer que se transforme em Papa seja o homem que Deus quer que seja Papa. Isto é um 'modo de falar', um 'jogo de palavras': “esta é vontade de Deus.”

Todos teólogos sempre compreenderam que existem dois sentidos à vontade de Deus. A vontade positiva de Deus e a vontade permissiva de Deus.

Assim, nós sabemos que Deus quer positivamente povos santos na Igreja… “que esta é vontade de Deus, sua santificação”. Mas quando o mal é feito, isto ocorre através da vontade permissiva de Deus. Não é algo que Deus queira diretamente, mas algo que Ele permite quando os homens exercitam o livre arbítrio.

Antes de todo conclave que elege um Papa, os eleitores são supostos a rezarem para serem orientados pelo Espírito Santo. Agora, se são verdadeiramente homens de Deus, e se eles rezam realmente, é esperado que o Espírito Santo lhes dará a escolha direita. Mas se são intencionais, ambiciosos, homens carnais, e não se estão abrindo verdadeiramente à inspiração, um candidato indigno da sua própria escolha pode ser o resultado. Isso não significa que o homem eleito cessa de ser Papa. Isso não significa que ele perde a proteção do Espírito Santo quando ensina a fé e a moral. Mas poder-se-ia se dizer que este Papa terminaria por ser um disastre.

Agora, como eu sei isto? Bem, não porque sei que quaisquer dos Papas modernos foram um disastre, isto é demasiado controverso. Mas na história da Igreja, há muitos exemplos de Pontificados desastrosos.


Nós aprendemos com a história

O Dr. John Rao é um estimado amigo meu. É professor de história da Igreja. Ele está muito triste com os chamados 'conservadores' que, quando fazem seus doutorados em história, documentam todas as decisões desastrosas dos Papas passados. Escreverão sobre todas as coisas desastrosas que aconteceram. Mas quando vem à situação atual, são uma "mãe". Acreditam que tudo deve ser direito. Mas se tudo deve ser direito e perfeito nos Pontificados atuais, a seguir por que escrevem sua dissertação doutoral sobre o disastre do Papa Honório, do Papa Libério, do Papa Alexandre VI ou de qualquer outro mais?

Assim, Rao insiste que nós aprendemos com a história, e que não devemos dizer que se "X foi eleito Papa, conseqüentemente esta é a vontade de Deus”. Não, pode ser tanto a vontade do positivo de Deus quanto meramente a vontade permissiva de Deus. Mas poder-se-ia ser que o homem selecionado para ser Papa seja o pior candidato para o ofício.

É como se Deus dissesse, “vocês eleitores carnais, e vocês povos carnais da Igreja que não rezaram o bastante receberão o que merece.” O papado ainda está protegido, e nunca ensinará com sua autoridade infalível algo como verdadeiro sendo na verdade falso, mas no mais tudo pode acontecer. O Papa eleito poderá fazer todo tipo de abominação… sua vida pessoal poderá ser um disastre, ele poderá ser movido por seu desejos próprios, e assim por diante. Poder-se-ia ser uma horrível pessoa.

Pode ser igualmente um disastre para a fé mesmo sendo uma boa pessoa.

O papado não é protegido de tal calamidade. E este é um ponto em que nós devemos ter um diálogo real com os chamados 'conservadores'.



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