06/09/2009

Dom Williamson e as discussões difíceis

Discussões difíceis (Parte I)

Do Bispo Tissier de Mallerais falando em Paris, ouvimos os termos fixados para as discussões doutrinais que darão lugar entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e as autoridades da Igreja em Roma. As discussões serão por escrito, o que é sábio, a medida que há menos espaço para a paixão e mais tempo para pensar. Também não serão feitas em público, uma provisão com que melhor elimina a "torcida" para ambas as partes, por outro lado é saber jogar enquanto público, porque lá não haverá público presente.

De Roma ouvimos que o impulso ao entendimento Roma-FSSPX gerado pela "recomunhão" dos quatros bispos da FSSPX em Janeiro pelo o Papa, foi seriamente interrompida pela a desconfiança gerada pela a mídia no tumulto de Janeiro a Fevereiro, tumulto no qual eu fui designado a termina-lo. Ainda subjetivamente falando, existe evidentemente uma boa vontade por parte do Papa em relação a FSSPX, e não má vontade por parte da FSSPX em relação a pessoa do Santo Padre.

O problema para essas discussões é que, objetivamente falando, como em qualquer uma das partes pode haver uma certa relutância em admitir, nós estamos na presença de uma irreconciliável batalha entre a religião de Deus e a religião do homem. O Vaticano II é o misto dos dois, onde predomina a religião do homem. Digamos que Bento XVI quer combinar o Vaticano II com a Tradição Católica. Que é ainda a religião do homem por um quarto. Suponhamos agora que a FSSPX e Bento XVI estão de acordo em chegar a metade do caminho com as duas. Ainda representaria uma oitava da religião do homem misturada com sete oitavas da religião de Deus, que aos efeitos de Deus Altissímo seria ainda um predominante oitavo.

Porque assim como se leva uma pequena desprorpocionalidade entre a água misturada a um tanque cheio de gasolina (ou petróleo) para evitar a morte de um motor de carro, então leva uma pequena mistura de idolatria para evitar a morte da verdadeira religião de Deus. O Senhor Deus nos diz, Ele é um Deus ciumento (Exod. XX, 5; etc.), e não tolerará nenhum deus falso ao Seu lado. Ninguém na FSSPX poderá ser tentado a cultuar com os neo-modernistas, como qualquer neo-modernista poderá desejar cultuar com os católicos. O Profeta Elias no Antigo Testamento disse a hesitação dos israelitas, "Quão distante vós estareis dos dois lados? Se é o Senhor Deus, seguem-O: mas se for Baal, no entanto seguem-o." Escritura (III Reis, XVIII, 21) e continua , "O povo não respondeu uma palavra".

Subjetivamente, os israelitas querem estar dos dois lados. Objetivamente, isso é impossivel. Para nós também. Kyrie Eleison.


Discussões Difíceis (Parte II)

Qual o melhor resultado que se pode esperar, e qual o pior que se deve temer, das "discussões doutrinais" que em teoria começarão entre a Igreja majoritária a Fraternidade São Pio X este outono em Roma? Na prática a separação doutrinal entre o Conciliarismo e o Catolicismo da Fraternidade é tão fundamental (podem ou não podem 2 mais 2 darem 4 e também 5?) que as "discussões" podem nem mesmo começar. Entretanto, supondo que os representantes sentem-se dos dois lados da mesma mesa, o que se pode esperar?

Salvo por um estupendo milagre de Deus, não há, humanamente falando, esperança de forma nenhuma de que os Romanos abandonem sua devoção a Vaticano II, de que o Concílio cuja letra mistura a religião de Deus e a do homem enquanto que seu espírito é definitivamente a religião do homem. Por mais de 40 anos o clero controlando a Igreja foi possuído pela convicção de que a Religião de Deus precisa ser adaptada ao homem moderno, e nada indica que eles estejam prestes a abandonar coletivamente sua "combinazione" mortal, muito pelo contrário. Vejam, por exemplo, a última Encíclica do Papa, "Caridade na Verdade".

Portanto o máximo que se pode esperar da parte dos Romanos é que um punhado dentre eles reagirá positivamente à Verdade Católica posta diante deles pela FSSPX, provavelmente de forma privada -- possam eles salvar suas almas! Da parte da FSSPX, na melhor das hipóteses, ela terá dado testemunho da Verdade na instância mais alta da Igreja onde isso mais importa, e mesmo que isto nesse alto foro faça pouco ou nenhum bem aparente, ainda assim pode-se esperar que um relato franco das discussões apresentado posteriormente a todos os Católicos de boa-vontade pode reforçar o apego à doutrina através da qual Católicos são Católicos, e fortalecer seu senso comum Católico de que, naturalmente e sobrenaturalmente, 2 mais 2 são 4 e nada mais.

O que se poderia temer, por outro lado, é que a primazia da doutrina seja borrada pelos feitiços do outono Romano. "Quem se deita com cachorros romanos levanta com pulgas púrpuras", diz um provérbio (inventado por um amigo). A tentação para a FSSPX, especialmente se Roma acenar tanto o açoite de outra condenação como a cenoura de reconhecimento diante do nariz de um jumento ainda açoitado, será planar sobre o abismo doutrinal e assentar-se sobre algum tipo de "acordo prático"; através do qual a FSSPX, desde já muito grata a Bento XVI, receberia status jurídico dentro da Igreja burocrática em troca da concordância (ainda que tácita) de parar de atacar seu Conciliarismo.

Entretanto, tal entendimento seria o começo do fim. O fim não da defesa da Fé, mas do fim da defesa da Fé feita pela FSSPX; pois como sabia o comunismo à moda antiga sabia, nunca se deve enfrentar Católicos em doutrina, onde os Católicos são mais fortes. Ao invés, sua estratégia era propor algum tipo de acordo prático pelo qual os Católicos passariam por sobre a doutrina e apenas cooperariam em ação com os comunistas. Como o Comunismo sempre soube, o resto viria depois...

Kyrie Eleison.

Londres, Inglaterra

2 comentários:

Felipe disse...

Prezado Inácio, Ave Maria Puríssima!

O primeiro destes dois artigos eu havia traduzido assim que saiu, para alguns amigos. Até enviei ao Fratres in Unum, mas não publicaram, presumo que por ser contrário à linha editorial do blog.

Pensava publicar a tradução em meu blog, no qual não entro faz algumas semanas já, mas sou meio lento com essas coisas... e você foi mais rápido, claro, aproveitando sabiamente o contexto dado pela publicação da Parte 2.

Em todo caso, parece-me útil reproduzir aqui a tradução que fiz, pois em apenas alguns pontos me parece mais precisa que a sua, a qual porém está muito boa. Veja que lhe parece:

* * *

Do Bispo Tissier de Mallerais, falando em Paris, ouvimos que foram fixados os termos para as discussões doutrinais a serem estabelecidas entre a Fraternidade São Pio X e as autoridades da Igreja em Roma. As discussões serão por escrito, o que é sábio, na medida em que haverá menos espaço para a paixão e mais tempo para o pensamento cuidadoso. Tambem não serão tornadas públicas, provisão esta que, na melhor hipótese, elimina "querer sair bem na foto" de ambos os lados, o que também é conhecido como "jogar para a plateia", pois não haverá plateia presente.

De Roma, ouvimos que o ímpeto rumo a um entendimento Roma-FSSPX, que foi gerado pela "re-incomunhão" dos quatro bispos da FSSPX pelo Papa em janeiro, foi seriamente desacelerado pela desconfiança gerada pelo estrondo midiático de janeiro-fevereiro, que é o que esse estrondo foi arquitetado para conseguir. Mas, falando subjetivamente, certamente ainda há boa vontade da parte do Papa para com a FSSPX, e não falta boa vontade da parte da FSSPX para com a pessoa do Santo Padre.

O problema, para essas discussões, é que, falando objetivamente — o que, de ambos os lados, talvez haja alguma relutância em admitir —, estamos em presença de um choque irreconciliável entre a religião de Deus e a religião do homem. O Vaticano II misturou as duas, o que foi uma metade de religião do homem em demasia. Digamos então que Bento XVI quer combinar o Vaticano II com a Tradição Católica. Isso ainda é um quarto de religião do homem em demasia. Agora suponhamos que a FSSPX e Bento XVI concordassem em andar meio caminho um rumo ao outro. Isso representaria ainda um oitavo da religião do homem misturado com sete oitavos da religião de Deus, o que, para os propósitos de Deus Onipotente, ainda seria um oitavo em demasia.

Pois assim como basta uma quantidade desproporcionalmente pequena de água misturada com um tanque cheio de gasolina para fazer o motor do carro morrer, assim também basta uma pequena mescla de idolatria para fazer morrer a verdadeira religião de Deus. É o próprio Deus Nosso Senhor Quem nos diz que Ele é um Deus ciumento (Êxodo XX, 5; etc.), e não tolerará nenhum falso deus além d'Ele. Para qualquer um que, na FSSPX, possa estar tentado a adorar juntamente com os neomodernistas, assim como para qualquer neomodernista que possa desejar unir-se ao culto dos Católicos, o profeta Elias, do Antigo Testamento, diria o mesmo que ele disse aos israelitas hesitantes: "Até quando claudicareis vós para os dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, o é Baal, segui-o." A Escritura (III Reis, XVIII, 21) diz em seguida: "E o povo não lhe respondeu palavra".

Subjetivamente, os israelitas quiseram as duas coisas ao mesmo tempo. Objetivamente, isso era impossível. Para nós também. Kyrie Eleison.

Bispo Richard Williamson
Londres, Inglaterra

* * *

Pedindo suas orações, me despeço,

Um abraço,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Brother Pius [V] disse...

Salve Maria Felipe!

Obrigado por seu post e tradução. Só deixarei a tradução original do próprio blog do Bispo Williamson e seu colaborador e "editor", Sr. Heiner, por motivo de curto tempo no momento, mas assim que tiver mais tempo para "revisar e atualizar" as traduções, poderei revisá-las.

A primeira tradução, se não me falha a memória, recebi por e-mail ou por blogs amigos, talvez seja até uma tradução sua, e caso seja, só tenho a agradecer ainda mais por seu trabalho na divulgação da Tradição Católica. Não hesite postá-las em seu Blog, quanto mais espalharmos o ensino Tradicional, melhor!

Em Cristo por Maria,
Br. Pius V
T.O.D